quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Bloco da Esquerda Socialista realiza com êxito Seminário sobre a crise e reorganização da esquerda



     
Com a presença de mais de 200 pessoas, de várias organizações políticas e sociais e independentes, foi realizado com pleno êxito, nos dias 12 e 13 de agosto, o seminário do Bloco da Esquerda Socialista (BES), cujo tema foi A Crise Política Brasileira e a Reorganização da Esquerda, no Sindicato dos Previdenciários de São Paulo. A abertura do seminário, na sexta feira, foi realizada com conferência dos camaradas Plinio de Arruda Sampaio Filho e Mauro Iasi, que ressaltaram a importância do evento e a necessidade de reorganização da esquerda socialista. Após a abertura, a palavra foi aberta aos presentes para manifestarem suas opiniões sobre o tema.

O seminário do Bloco da Esquerda Socialista teve uma importância fundamental porque ampliou os laços de unidade e confiança entre as organizações componentes e colocou a organização do Bloco num patamar superior, uma vez que novas organizações se incorporaram ao BES e se aprovou uma declaração política que vai orientar a luta da militância revolucionária nas lutas que virão. Para Edmilson Costa, da coordenação do BES, o seminário demonstrou o acerto de construção de um instrumento unitário de luta da esquerda socialista e apontou um conjunto de aportes políticos que irão nortear a luta pelas transformações sociais e políticas no Brasil.

O processo de organização do seminário envolveu reuniões semanais das organizações políticas. Para ampliar o debate, antes do evento as organizações componentes do BES enviaram teses como contribuição à discussão, que foram amplamente divulgadas nas redes sociais. No sábado, dia 13, o debate foi dividido em dois blocos: pela manhã, as organizações do BES realizaram o debate sobre a conjuntura política brasileira. Na parte da tarde, o debate teve como tema o processo de reorganização da esquerda. Tanto na manhã quanto na tarde a palavra foi aberta para os presentes. Ao final do seminário foi aprovada a Declaração do Seminário do Bloco da Esquerda Socialista, que publicamos abaixo na íntegra.

Refletindo os tempos difíceis em que estamos vivendo, a polícia esteve na secretaria do sindicato querendo saber sobre o tema e objetivos do seminário, com o objetivo de intimidar os organizadores. Ao final do evento as crianças que estavam na creche solidária realizaram uma bela apresentação dos trabalhos de pintura que fizeram enquanto suas mães estavam participando do evento. Depois, todos foram para a festa de encerramento do seminário, no Espaço Cultural Rosa Luxemburgo, onde se divertiram até altas madrugadas.

Declaração do Seminário do Bloco da Esquerda Socialista – São Paulo

Fora Temer! Construir a Greve Geral em defesa dos direitos dos trabalhadores! O povo deve decidir e construir uma saída pela esquerda! Unir a esquerda socialista!

O Bloco da Esquerda Socialista (BES) vêm construindo com inúmeras organizações, movimentos, militantes independentes, a partir da Carta de São Paulo, aprovada no Ato/debate de 19 de maio, um processo amplo e plural de unidade política para a organização, o debate e ação. Cruzando as fronteiras formais das legendas partidárias, o movimento busca aprofundar a discussão com o objetivo de consolidar os pontos de unidade política entre as várias organizações que compõem o BES.

O Seminário realizado nos dias de 12 e 13 de agosto é o resultado dessa experiência e coloca nosso processo organizativo em um patamar superior. Fortalecemos nossos laços de unidade e confiança e nos abrimos para novos setores da esquerda socialista brasileira na luta contra as classes dominantes e por uma consistente alternativa à fracassada política de conciliação de classes representada pelo lulismo e o PT.

O que nos moveu desde o início e nos move até hoje é a disposição firme e clara de resistir aos ataques contra os interesses da classe trabalhadora, da juventude, das mulheres, LGBTs, negros, negras e indígenas em meio à gravíssima crise do capitalismo no Brasil e no mundo. Identificamos no processo de impeachment uma manobra antidemocrática da classe dominante visando exclusivamente criar condições melhores do que as existentes durante o governo Dilma para aprofundar a ofensiva contra os direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas.

Dilma e Lula, mantendo uma ilusória política de conciliação de classes, tentaram evitar o desfecho do impeachment apostando ainda mais na conciliação com uma classe dominante que já não queria mais acordos ou meios termos. Essa burguesia optou pelo governo Temer e sua base corrupta e elitista no Congresso visando impor aos trabalhadores e ao povo pobre e oprimido um conjunto de contrarreformas e ataques que afetarão de forma cruel as atuais e futuras gerações.

A defesa de um retorno de Dilma para cumprir seu mandato não tem força para mobilizar os trabalhadores, afinal foram os trabalhadores os mais prejudicados com os ajustes promovidos pela própria presidenta. A aposta nas eleições de 2018, como vem ensaiando o Partido dos Trabalhadores, com a possibilidade de retorno do lulismo ao poder depois que Temer já tiver feito o trabalho sujo, beira uma traição à luta pelo “Fora Temer” e em defesa dos direitos dos trabalhadores. Além de inaceitável para quem luta agora contra os ataques de Temer, essa estratégia é uma receita acabada para a derrota. Se formos derrotados agora, o cenário de 2018 poderá ser ainda mais difícil.

O governo usurpador já anunciou os seus ataques, entre os quais ganham destaque a contrarreforma da previdência e a fixação de uma idade mínima para a aposentadoria; a contrarreforma trabalhista com a perda de direitos e as terceirizações; e a contrarreforma fiscal (PEC 241) que corta ainda mais profundamente os gastos públicos até mesmo nos setores de educação e saúde, medidas exigidas pelo grande capital e que servem para punir terrivelmente os trabalhadores por uma crise que eles não geraram. Além disso, aprofunda-se a política de privatizações, em especial em setores estratégicos como no caso do pré-sal e da Petrobrás. A repressão e criminalização dos movimentos sociais também ganham força com a lei antiterrorismo e a postura truculenta e autoritária do novo governo ilegítimo.

É necessário registrar ainda que esse governo ilegítimo está buscando aprovar um projeto autoritário e discriminatório para a educação, a Escola com Mordaça, ridiculamente denominado Escola Sem Partido, cujo objetivo é implantar o obscurantismo nas escolas e universidades e impedir a formação crítica e democrática da juventude. A sua política de segurança busca não só restringir as liberdades democráticas, mas ampliar o extermínio da população pobre, negra e periférica, a repressão e o assassinato de índios e trabalhadores rurais pelo Brasil afora. A isso se junta uma reforma política que visa cercear a participação democrática das organizações de esquerda.

Em São Paulo a situação não é diferente: há mais de 20 anos o PSDB dirige o Estado de maneira truculenta e conservadora, privilegiando os ricos e poderosos, criminalizando os movimentos sociais, privatizando os equipamentos públicos e perseguindo os trabalhadores e movimentos sociais. O governo vem privatizando direta ou indiretamente o metrô, a Sabesp, os serviços de saúde e perseguindo os funcionários públicos, especialmente os professores e trabalhadores da saúde, na sua justa luta por melhores condições de vida e trabalho. A polícia de São Paulo é uma das mais truculentas do Brasil e linha de frente da criminalização dos movimentos sociais. Várias ocupações e diversas manifestações foram e são duramente reprimidas. O extermínio da juventude negra e pobre nas periferias é uma terrível realidade.

A luta de nosso povo contra o governo ilegítimo e usurpador de Temer tem sido intensa. Três meses depois do afastamento de Dilma o que vemos nas manifestações de rua, nos estádios de futebol, nas apresentações artísticas e agora mesmo nas manifestações durante as olimpíadas é uma enorme energia e disposição de luta, envolvendo a juventude, as mulheres, os trabalhadores e trabalhadoras. Portanto, este é o momento de unidade da esquerda socialista para canalizarmos essa imensa energia buscando uma saída no interesse dos trabalhadores e da juventude, que se diferencie da política de conciliação de classes e da ofensiva da direita.

Nosso posicionamento desde o início se pautou pela necessidade da unidade de ação com todos e todas que se colocam contra o governo usurpador de Michel Temer e sua política antipopular. Trata-se de uma questão vital para a classe trabalhadora e o mínimo que se pode exigir é a unidade de todas as organizações sindicais e populares nessa luta. Defendemos um processo de lutas nas várias categorias de trabalhadores, cujo desfecho deverá ser a convocação de uma greve geral, a mais unificada possível, contra esses ataques e na busca de uma alternativa dos trabalhadores.

Queremos ressaltar ainda que em nenhum momento deveremos depositar nossas esperanças de que a direção “lulista” ou petista possa levar essa luta até as últimas consequências. Por isso, batalhamos pela construção de uma alternativa social e política da esquerda socialista construída nas lutas. Defendemos a realização de um Encontro Nacional das Classes Trabalhadoras e do Movimento Popular, com o objetivo de reunir todas as forças anticapitalistas e movimentos sociais classistas para construir um programa mínimo e uma articulação política que possa colocar os trabalhadores e a juventude em movimento no sentido das transformações sociais.

A saída que propomos é o caminho da luta dos trabalhadores e trabalhadoras, da juventude e de todo o povo pobre e oprimido desse país pelo Fora Temer, contra o ajuste fiscal e os ataques contra os trabalhadores e por transformações sociais e políticas em nosso País. Nessa luta são os trabalhadores e o povo quem devem decidir os rumos do país, inclusive quem deve governar, e construir uma saída pela esquerda, fazendo com que os ricos paguem pela crise.

Uma saída pela esquerda para a crise passa necessariamente pela auditoria e suspensão do pagamento da dívida pública aos grandes especuladores e uma maior tributação sobre as grandes fortunas. Junto com isso também defendemos o controle público sobre o sistema financeiro. Medidas como essas serão necessárias para que se possa financiar os serviços públicos de qualidade, garantir o direito a uma aposentadoria digna, a ampliação dos direitos sociais e o desenvolvimento do país a partir de uma lógica social e ambientalmente adequada às necessidades da nossa classe. Também é preciso revolucionar esse sistema político falido e apostar na radicalização da democracia com base no poder popular.

Além dessas lutas, estamos pela defesa dos direitos trabalhistas e reprodutivos das mulheres, garantia de serviços de saúde, educação, transporte e moradia às mulheres pobre e negras. Defendemos as lutas LGTBs contra o retrocesso e o reconhecimento do nome social aos transexuais. Da mesma forma, lutaremos contra qualquer tipo de opressão (machismo, racismo, LGTBfobia).

Se a crise e os ataques aos direitos são internacionais, uma saída pela esquerda no Brasil deve articular-se com a resistência e luta internacional da classe trabalhadora contra o capitalismo, em particular na América Latina. Todas essas lutas e ações têm que estar a serviço da estratégia pela revolução socialista.

Participamos como Bloco da Esquerda Socialista da manifestação de 31 de julho em São Paulo convocada pela Frente Povo Sem Medo e esperamos que essa manifestação possa representar uma nova etapa da luta contra Temer e sua política antipopular, onde uma posição independente do que foi o petismo e “lulismo” possa dar o tom e fazer a luta avançar.

As organizações, movimentos e militantes do Bloco da Esquerda Socialista, também se insurgem contra o atual estado de coisas no campo da própria esquerda socialista. O nível de fragmentação e sectarismo presentes no último período tem inviabilizado a construção de alternativas de esquerda viável no país. Mas essa situação começa a se modificar por iniciativas como as nossas, entre outras que ocorrem nacionalmente. Essas iniciativas unificadoras representam um avanço importante na luta de nosso povo e precisam estar cada vez mais coordenadas e unificadas.

Apesar das contradições presentes, o cenário atual é mais propício à unidade da esquerda socialista. Pressões oportunistas e sectárias continuam existindo, mas estamos em meio a um importante processo de reorganização e recomposição da esquerda socialista. Muitos setores estão tirando conclusões da intensa experiência das lutas e debates desde as jornadas massivas de junho de 2013, o ascenso das greves e ocupações do movimento popular, a primavera das lutas das mulheres e LGBTs, as ocupações de escolas por parte da juventude, a luta contra a direita nas ruas, passando pelo processo de impeachment e as lutas atuais pelo Fora Temer.

É nosso papel fortalecer os pilares políticos e programáticos, anticapitalistas, classistas e socialistas e as práticas democráticas, solidárias, de colaboração e unidade entre as forças da esquerda socialista. Como continuidade de nosso processo de reorganização, propomos a realização de um Encontro nacional de todas as frentes e blocos da esquerda socialista que se organizaram em vários estados nos últimos tempos.

No Seminário que acabamos de realizar fortalecemos nossas bases comuns e aprendemos um pouco mais a lidar com as diferenças, sem escondê-las ou subestimá-las, mas tratando-as de forma proporcional a sua importância real. Ainda temos um longo caminho pela frente, mas estamos em melhores condições para avançar. Por isso, chamamos a todos lutadores e lutadoras, organizações políticas, movimento sindical e popular e os coletivos que inspiram-se nos mesmos ideais de luta e unidade da esquerda socialista para que se somem à construção das bases para uma verdadeira alternativa de esquerda socialista.

São Paulo, 13 de agosto de 2016




domingo, 14 de agosto de 2016

O pensamento vivo de Che Guevara - parte 2


Seus primeiros escritos buscaram sistematizar as experiências guerrilheiras em Cuba e generalizá-las para os outros países do Terceiro Mundo. No entanto, também, escreveu sobre economia, Estado, ideologia socialista e a construção do "novo homem”. Creio que estes últimos textos sejam os mais significativos e os que mais podem nos trazer ensinamentos para os dias atuais.



Por Augusto C. Buonicore*

Visando a vencer estes obstáculos Che lançou um amplo movimento de emulação do trabalho. Ele criou e liderou os batalhões de voluntários, participando pessoalmente do corte de cana e da construção de moradias. Seguindo seu exemplo, milhares de estudantes, funcionários públicos e intelectuais passaram a realizar atividades produtivas fora do seu tempo normal de trabalho ou de estudo. Guevara queria utilizar a força do exemplo para incentivar os trabalhadores a aumentarem a produção.

Aqui, novamente se estabeleceu uma divergência entre ele e os especialistas soviéticos. Tratava-se de encontrar a melhor forma de incentivar o trabalhador a produzir mais e melhor. Toda a tradição de construção do socialismo na URSS e no Leste Europeu se baseava, fundamentalmente, na concessão de estímulos materiais aos trabalhadores que atingissem ou ultrapassassem as metas impostas pelos órgãos centrais de planejamento. Guevara não negava a necessidade de se dar esses estímulos materiais na primeira fase de construção do socialismo, mas acreditava que o movimento de emulação para produção não devia se assentar principalmente neles.

Escreveu: "não negamos a necessidade objetiva do estímulo material, mas estamos relutantes em utilizá-lo como alavanca impulsora fundamental. Consideramos que, em economia, este tipo de alavanca se torna rapidamente uma categoria autônoma e chega a impor rapidamente sua própria força nas relações entre os homens. Não devemos esquecer que (essa necessidade de estímulos materiais) provém do capitalismo e está destinada a morrer no socialismo”.

Criticando os defensores do modelo de emulação de tipo soviético, afirmou: para eles, "o estímulo material direto, projetado no futuro e acompanhando a sociedade nas diversas etapas da construção do comunismo, não se contrapõe ao ‘desenvolvimento’ da consciência, enquanto para nós, sim; é por isso que lutamos contra o seu predomínio: porque significa o atraso do desenvolvimento da moral socialista”.

Era preciso ganhar a consciência dos trabalhadores, fortalecendo neles uma ética socialista. O partido revolucionário e seus militantes teriam um grande papel neste processo de reeducação da sociedade. "O grande papel do Partido nas unidades de produção é ser o seu motor interno e utilizar todas as formas de exemplo de seus militantes para que o trabalho produtivo, a capacitação, a participação nos assuntos econômicos das unidades sejam parte integrante da vida dos operários e se transformem num hábito insubstituível.”

Outro aspecto, vinculado ao anterior, que diferenciava o projeto de Guevara das experiências do "socialismo real”, era quanto à igualização dos salários. No regime soviético, as significativas diferenças salariais entre trabalho intelectual e manual, entre trabalho especializado e não especializado, entre função dirigente e subordinada passaram a ser defendidas como intrínsecas a todo o período de transição do socialismo ao comunismo. Na tradição soviética o "igualitarismo” foi apressadamente definido como um desvio pequeno-burguês.

Guevara acreditava que, já no início da transição, o Estado Socialista e o Partido Comunista deveriam tomar medidas no sentido de eliminar as mazelas provindas da sociedade capitalista, a saber: a divisão estanque entre trabalho intelectual e manual; entre funções de mando e subordinadas; o predomínio de incentivos materiais, através de maiores salários e acesso aos bens de consumo – o que, no caso soviético, contribuiu para a formação de uma burocracia afastada das massas trabalhadoras. Ele defendeu que o socialismo, necessariamente, deveria tender sim para a igualização dos salários e das condições de vida. Isto, inclusive, deveria implicar sacrifícios conscientes para algumas camadas de trabalhadores mais privilegiadas, especialmente dos setores médios e da burocracia.

Afirmou ele: "Esta tarefa de distribuição dos bens do país é a mais difícil e a mais penosa; estamos empenhados nela agora para repartir de modo equitativo nossa pobreza, para que ninguém deixe de comer, de se vestir, de receber educação, atendimento médico e também para que ninguém receba demais (...) não deve recair sobre os trabalhadores a desgraça de pertencer a uma indústria de pouca rentabilidade ou a sorte excessiva de estar numa indústria das mais rentáveis”. Continuou, "os trabalhadores que hoje têm salários acima da norma terão seus salários congelados e o trabalhador que ingresse na produção passará a um trabalho similar, não com o salário daquele companheiro que tinha adquirido seu direito anteriormente, mas com o novo salário.”

O trabalho voluntário realizado pela juventude, intelectuais comunistas e membros do governo era uma das muitas medidas visando a valorizar o trabalho manual-produtivo e, em certo sentido, a reduzir o fosso existente entre os dois tipos de trabalho – intelectual e manual. Lênin chegou a apregoar essa forma de trabalho logo após a revolução de outubro: os sábados comunistas.

Apesar da presença de certo voluntarismo, uma vontade de pular etapas – na tentativa de redução do espaço de ação da lei do valor –, ele levantou questões essenciais que devem ser enfrentadas logo nos primeiros dias da transição. Em outras palavras, seria preciso realizar, ao lado do desenvolvimento das forças produtivas, uma verdadeira revolucionarização nas relações de produção – eliminando gradualmente as diferenças entre trabalho intelectual e manual, das funções de execução e de mando, reduzindo as desigualdades salariais e no nível de vida entre as diversas camadas de trabalhadores, e entre elas e os membros do aparato estatal. O socialismo não pode reforçar essas assimetrias como ocorreu na experiência soviética.

Talvez sejam essas teses guevaristas, muitas das quais foram e são aplicadas pelo Estado cubano, que nos permitem entender melhor a incrível capacidade de resistência do poder popular em Cuba durante todos estes anos, apesar do cerco imperialista e da débâcle soviética. É preciso aprender com esta experiência, sem tê-la como "modelo ideal” a ser aplicado extemporaneamente e sem ter em conta as particularidades nacionais.

A CONSTRUÇÃO DO HOMEM NOVO

Segundo Guevara, o problema da construção do "homem novo” figurava num lugar de destaque dentro do projeto socialista e deveria ser a principal obra da revolução. O sistema capitalista, no seu processo de produção e de reprodução social, não cria apenas mercadorias e mais-valia, cria também homens incompletos, fragmentados. Sobre este processo escreveu Che: "O exemplar humano, alienado, tem um invisível cordão umbilical que o liga à sociedade (capitalista) em seu conjunto: a lei do valor. Ela atua em todos os aspectos de sua vida, vai modelando seu caminho e seu destino (...). As leis do capitalismo, invisíveis para o comum dos mortais, e cegas, atuam sobre o indivíduo sem que este perceba.”

As particularidades do processo de transição ao socialismo, que pressupõe a permanência do mercado e de suas leis – inclusive a lei do valor – levam a sociedade nova a ainda conviver, por algum tempo, com elementos das ideologias predominantes no capitalismo – a burguesa e pequeno-burguesa. Estas continuam a se reproduzir, ameaçando o futuro da transição, se não forem contidas pela ação firme e consciente do novo poder popular e socialista.

"As taras do passado”, afirmou Che, "se transferem ao presente na consciência individual, e é preciso fazer um trabalho contínuo para erradicá-las (...). A nova sociedade em formação tem que competir muito duramente com o passado (...) pelo próprio caráter deste período de transição com a persistência das relações mercantis. A mercadoria é a célula econômica da sociedade capitalista; enquanto existir, seus efeitos se farão sentir na organização da produção e, por conseguinte, na consciência”.

Por esse motivo, Che se colocou contra os métodos de emulação que priorizassem as concessões de estímulos materiais – aumento de cotas de consumo, prêmios de produtividade etc. Segundo ele, a necessidade do aumento rápido da produção levou à "tentação de seguir caminhos trilhados do interesse material”, correndo-se o risco de perseguir o sonho irrealizável de buscar construir o socialismo com a ajuda "das armas defeituosas que nos foram legadas pelo capitalismo”; estas fariam um lento e seguro trabalho de sabotagem sobre o desenvolvimento de uma consciência socialista dos trabalhadores. "Daí”, afirmou ele, "ser importante escolher corretamente o instrumento de mobilização das massas. Esse instrumento deve ser de índole moral (...). A sociedade em seu conjunto deve se converter em uma gigantesca escola”.

A persistência da ideologia burguesa, engendrada pelas leis de mercado, levam o trabalhador a considerar natural a vinculação direta entre sua produtividade média e seu acesso ao consumo de mais e melhores mercadorias. "Justamente por isso”, afirmou, "a ação do Partido de Vanguarda consiste em levantar ao máximo a bandeira oposta, a do interesse moral, do estímulo moral, a bandeira dos homens que lutam, se sacrificam, e não esperam nada mais do que o reconhecimento por parte de seu companheiros.”. Continuou: "O estímulo moral, a criação de uma nova consciência socialista é o ponto em que devemos nos apoiar, aonde devemos chegar e ao qual devemos dar ênfase (...). O estímulo material é o resquício do passado com o qual se deve contar, mas cuja importância deve diminuir na consciência das pessoas na medida em que o processo avança (...). O estímulo material não fará parte da nova sociedade que está se criando, deverá se extinguir no caminho”.

Segundo Guevara, o homem no socialismo, "apesar da sua aparente homogeneização, é mais completo (...) e sua possibilidade de se expressar e se fazer sentir no aparato social é infinitamente maior.” O socialismo seria o momento de recuperação da integralidade humana, da construção do homem multidimensional, desalienado. O socialismo plenamente realizado representaria a apropriação, pelos homens, das condições de sua produção e reprodução de sua vida.

Este processo teria início com a implantação do planejamento consciente– e democrático– da produção econômica. Assim, o homem tomaria o seu destino nas próprias mãos. Afirmou ele: "é preciso acentuar sua participação consciente, individual e coletiva, em todos os mecanismos de direção e de produção (...). Assim obterá a consciência total de seu ser social, o que equivale à sua realização plena como criatura humana”. E conclui: "o homem realmente alcança sua plena condição humana quando produz sem a compulsão da necessidade física de vender-se como mercadoria”.

Seguindo uma indicação do jovem Marx, ele constatou que o trabalhador "morre diariamente às oito horas em que atua como mercadoria para ressuscitar em sua criação espiritual”. Contudo, no capitalismo, mesmo o lazer e a produção cultural não passam de tentativas de fuga. "A lei do valor não é mero reflexo das relações de produção”, ela perpassa todas as relações humanas, inclusive fora do trabalho. Na sociedade atual, "a angústia sem sentido ou o passatempo vulgar constituem válvula cômodas para a inquietação humana”. Sendo, portanto, úteis para a reprodução do sistema.

Trabalho desalienado é uma categoria importante para Guevara, seria exclusivamente através dele que poderia ser constituído o homem novo. Por isso, a renovação e valorização do trabalho, especialmente o manual-produtivo, deveriam ser uma tarefa central do poder socialista. Este processo passaria pela redução das desigualdades entre trabalho intelectual e manual, entre funções de comando e funções subordinadas. O trabalho manual não poderia ser a sina dos definidos como menos aptos, como ocorre nas sociedades capitalistas. Nelas, a pecha de trabalho desqualificado é sinônimo de baixos salários e precarização das condições de vida, quando comparadas com formas "superiores” de trabalho – o trabalho intelectual e de dirigente do processo produtivo e estatal. O socialismo deveria fundar também uma nova ética do trabalho.

Referindo-se aos jovens cubanos ele afirmou: "Sua educação é cada vez mais completa, não nos esquecemos de sua integração no trabalho desde os primeiros momentos. Nossos bolsistas fazem trabalho físico em suas férias ou simultaneamente ao estudo. O trabalho é um prêmio em certos casos, um instrumento de educação, em outros, nunca um castigo.” O trabalho manual deveria se livrar do estigma de martírio e castigo que, de certa forma, carregou inclusive nas experiências socialistas – que tinha no deslocamento para trabalhos manuais uma forma de castigo para os opositores ao regime.

A sociedade socialista em construção deveria se livrar também da velha concepção capitalista de que a capacidade de consumo de mercadorias seria a medida de todos os homens. Se o socialismo quiser competir neste terreno estará de antemão derrotado. Não seria possível oferecer um nível de consumo superior ao existente nas sociedades capitalistas avançadas para toda a população, nem em curto e nem em longo prazo. "Não se trata de quantos quilos de carne se come ou de quantas vezes por ano alguém pode ir passear na praia, nem de quantas maravilhas que vêm do exterior possam ser compradas como os salários atuais. Trata-se, precisamente, de que o indivíduo se sinta mais pleno, com mais riqueza interior e com muito mais responsabilidade”, afirmava ele.

Outra característica do humanismo socialista, defendido por Che, é o internacionalismo. Ser comunista se confundia com ser internacionalista e ter amor pela humanidade. "Permita-me dizer-lhes”, afirmou ele, "com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível se pensar em um revolucionário autêntico sem esta qualidade (...). Nosso revolucionário de vanguarda tem que idealizar esse amor aos povos, às causas mais sagradas e fazê-lo único, indivisível”.

O militante da causa socialista não deve se contentar apenas em realizar as tarefas locais e se bastar com elas. Mesmo as pequenas vitórias cotidianas podem adormecer o espírito transformador e levá-lo ao acomodamento, e isto é a morte da revolução e da possibilidade da realização plena do socialismo. "Se o afã de revolucionário se debilita quando as tarefas mais prementes se realizam em nível local e se esquece do internacionalismo proletário, a revolução que dirige deixa de ser uma força impulsionadora e desaparece numa cômoda modorra, aproveitada por nossos inimigos irreconciliáveis”. Conclui Che: "Não pode existir socialismo se nas consciências não se opera uma mudança que provoque uma nova atitude fraternal diante da humanidade”.

No texto O que deve ser um jovem comunista, Guevara reafirmou suas teses humanistas e internacionalistas: "o que se coloca para todo jovem comunista é ser essencialmente humano, ser tão humano que se aproxime do melhor dos humanos. Purificar o melhor do homem através do trabalho, do estudo, da prática da solidariedade contínua com o povo e com todos os povos do mundo; desenvolver o máximo de sensibilidade, até o ponto de sentir-se angustiado quando em algum canto do mundo um homem é assassinado e até o ponto de sentir-se entusiasmado quando em algum canto do mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade”.

Contraditoriamente, a vitória da revolução pode levar à burocratização dos quadros dirigentes do Estado e do Partido, por isso é necessário um constante processo de vigilância e educação ideológico. A burocratização é um instrumento a serviço da contrarrevolução. "Contrarrevolucionário é todo aquele que contraria a moral revolucionária (...) é (também) aquele senhor que, valendo-se de sua influência, consegue uma casa, consegue depois dois carros, viola o racionamento e obtém depois tudo o que o povo não tem (...). Aquele que utiliza suas influências boas ou ruins em proveito pessoal ou dos seus amigos, este é contrarrevolucionário”. Os dirigentes do Partido e do Estado devem ter uma conduta exemplar, este é um fator determinante para se conquistar as massas para a construção do socialismo.

As dificuldades impostas ao processo de construção do "homem novo” são enormes. A sua realização exige vontade férrea e grandes sacrifícios dos dirigentes revolucionários. Não se realizará de uma só vez, conhecerá avanços e recuos. Os métodos serão importantes – por isso é preciso encontrar métodos novos, adequados à nova sociedade socialista que se quer construir. Mas, ela é possível de ser realizada e nela se assentará a possibilidade de realização do sonho socialista – de um homem liberto da exploração, da opressão de toda espécie –, o homem emancipado.

Afirmou Guevara: "Se alguém nos disser que somos quase uns românticos, que somos idealistas inveterados, que estamos pensando em coisas impossíveis e que não se pode conseguir da massa do povo que ela seja quase um arquétipo humano, temos que responder uma e mil vezes que sim, que isso é possível, que estamos no caminho certo, que todo o povo pode avançar, acabar com a mesquinhez humana como está acontecendo em Cuba nestes quatro anos de revolução.”


* Historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros e Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos publicados pela Editora Anita Garibaldi.


Fonte:Grabois


BIBLIOGRAFIA

AYERBE, Luiz Fernando. A Revolução Cubana. São Paulo: Unesp, 2004.
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
DEL RIO, Eduardo (Rius). Conheça Che Guevara. São Paulo: Proposta.
GUEVARA, Ernesto Che. A Guerra de Guerrilhas. São Paulo: Edições Populares, 1982.
_______. Cartas. São Paulo: Edições Populares, 1987.
_______.Coleção Grandes Cientistas Sociais/ Política (organizada por Eder Sader). São Paulo: Ática, 1988.
HARNECKER, Marta. Fidel, a estratégia política da vitória. São Paulo: Expressão Popular, 2000.
LOWY, Michael. O pensamento de Che Guevara. São Paulo: Expressão Popular, 2002.


FONTE:  Adital

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Moncada: O início da Revolução Cubana



A Revolução Cubana começou quando os rebeldes fizeram o Assalto ao Quartel Moncada em Santiago em 26 de julho de 1953.

Na sexta-feira, dia 26 de julho, Cuba celebra o Dia da Rebeldia Nacional, a maior festa da Revolução Cubana. Neste dia, em 1953, o jovem advogado Fidel Castro e seu irmão Raul, juntamente com outros revolucionários, partiram para a ação e tentaram pegar de assalto o Quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, e Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo.

O objetivo era tomar o quartel, invadir o paiol de armas e munições, distribuir fuzis pelas ruas para que a população se juntasse aos rebeldes e começasse a insurreição, que culminaria com a derrota do ditador Batista. Na época, o movimento estudantil promovia manifestações contra o governo de Fulgêncio Batista.

Às 5:15 da manhã, durante o Carnaval em Santiago de Cuba – que acontece todo final de julho –, começava o grande golpe. Nada, ou quase nada, deu certo. Um grupo, liderado por Raul Castro e integrado por dez homens, ocupou um prédio vizinho, o Palácio da Justiça. Outro, liderado por Abel Santamaria e integrado por 21 homens, ocupou o hospital militar que era outro prédio vizinho, de cujo quintal e das janelas pensava-se dar cobertura a um terceiro grupo comandado pelo líder da ação, Fidel Castro. Justamente este grupo teve problemas.

Ao aproximar-se do portão 3 do Quartel de Moncada, o Buick verde que levava Fidel Castro, disfarçado de um comandante militar, foi detido pelos soldados. Começou o tiroteio e a partir daí foi tudo rápido demais para que alguém pudesse entender exatamente o que estava acontecendo. Porém, a invasão ao paiol das armas foi frustrada.

Muitos combatentes foram capturados e assassinados. Porém, a intentona marcou o princípio do fim da ditadura de Fulgêncio Batista. Fidel Castro é julgado e condenado a 15 anos de prisão. Por ser advogado, pronuncia sua autodefesa diante do tribunal, que passou a ser conhecida como “A história me absolverá”, frase com a qual conclui sua autodefesa.

Fidel e os revolucionários sobreviventes, depois forte campanha popular, conseguiram a anistia e se exilaram no México em 1955. De lá, Fidel Castro reorganizou seus companheiros do ataque a Moncada e outros revolucionários que a eles se uniram, dentre eles o argentino Ernesto “Che” Guevara, e fundaram o Movimento Revolucionário 26 de Julho. Retornaram clandestinamente a Cuba a bordo do iate “Granma”, onde desembarcaram em 2 de dezembro de 1956. A luta armada foi retomada, desta vez na forma de guerrilha nas montanhas de Sierra Maestra. Inicia-se assim a Revolução Cubana que em 1º de janeiro de 1959 triunfaria contra Fulgêncio Batista.

Y en eso llego Fidel- Carlos Puebla https://www.youtube.com/watch?v=3C1z3MDxvtQ

Marcha del 26 de Julio / Asalto al Cuartel Moncada https://www.youtube.com/watch?v=89BIFnUF4jQ


FONTE: PCB

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Observações sobre a crise da IV Internacional


Por Rui Costa Pimenta 


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A IV Internacional foi desmantelada em 1952, dando lugar a criação de dois blocos que, posteriormente, levariam a um maior desintegração em dezenas de organizações internacionais que se reivindicariam, algumas até hoje, da “reconstrução” ou da “reorganização” ou, até mesmo, da manutenção da IV Internacional.

A raiz da ruptura foi a tentativa de revisão radical pela maioria da direção internacional encabeçada pelo seu secretário-geral, o grego Michel Raptis conhecido como Michel Pablo. Esta revisão foi resultado das pressões sociais sofridas pela esquerda pequeno-burguesa sobre a base dos acontecimentos do pós-guerra. No imediato pós-guerra, o stalinismo confirma de maneira cabal o seu caráter contrarrevolucionário conforme a caracterização de Trótski e da IV Internacional. A frente popular mundial concluída entre o governo da URSS e o imperialismo e o estrangulamento da revolução europeia na França e na Itália por esta frente popular, a traição da Revolução Grega não deixam margem a dúvidas. A adesão de Stálin, Togliatti, Maurice Thorez e de todo o aparato stalinista internacional às ilusões da democracia imperialista (o PCB, com Prestes no Brasil, é um exemplo significativo) acaba de confirmar a derrocada direitista do stalinismo e a sua conversão ao regime político burguês. Os acontecimentos de 1948, ou seja, a contraofensiva imperialista, apoiada na derrota da revolução na Europa e na política stalinista de contenção da revolução mundial, que não estava nos planos nem de Stálin e dos stalinistas, nem da inexperiente direção da IV Internacional, leva a uma reviravolta que os dirigentes da organização trotskista serão incapazes de compreender. A expulsão do PCF do governo em 1947, o início da guerra da Indochina, o Plano Marshall, o afastamento do Partido Comunista Italiano e as críticas eleições de 1949 na Itália destroem as ilusões em uma convivência harmoniosa entre as direções stalinistas, e os movimentos que dirigem, e a burguesia imperialista mundial. No Brasil, o PCB será colocado na ilegalidade pelo governo Dutra.

O stalinismo respondeu a estas agressões com uma posição defensiva, trancando-se em um zona de segurança dos países do Leste Europeu os quais havia ocupado militarmente para prevenir a derrubada revolucionária de uma burguesia em completa dissolução e expropriando ali o que restava do capital após a debandada dos capitalistas alemães. Este recuo foi seguido de uma pseudo radicalização ideológica, com a ideia de que o mundo estava dividido em blocos e de que a passava à ordem do dia a luta pela democracia, que três anos antes havia sido saudada como uma conquista definitiva. A vitória da Revolução Chinesa em 1949, em ruptura aberta com a posição contrarrevolucionária de Stálin e da cúpula da burocracia da URSS, contribuiu para acentuar ainda mais a impressão – falsa – de avanço do stalinismo em escala mundial.

O núcleo dirigente da IV Internacional, tendo como porta-voz Michel Pablo, sucumbiu completamente ao impressionismo pequeno-burguês e abandonou os princípios mais elementares do programa marxista, adotando a teoria do blocos, em detrimento do programa da luta de classes, e assimilando a ideia antimarxista de que a burocracia haveria de constituir toda uma era na história da humanidade, algo assim como uma nova etapa histórica entre o capitalismo e o socialismo.

Estas posições foram enfrentadas pela maioria da seção francesa da IV Internacional de maneira extraordinariamente lúcida, com exceção das suas conclusões políticas práticas.[1] Estas conclusões políticas, no entanto, não são compreendidas pela maioria das seções

Não foram, porém, estas posições que levaram à divisão da internacional e sim os métodos administrativos e truculentos com os quais Pablo tratou de impor suas noções às seções nacionais. Esta crise será expressiva na América Latina, onde o lugar-tenente de Pablo, o secretário latino-americano da IV Internacional, Homero Cristali, conhecido como J. Posadas, procura dominar as seções locais por meios administrativos. O resultado será a divisão da seção argentina e, ainda mais grave, o esfacelamento do Partido Obrero Boliviano em três frações, em pleno processo revolucionário em 1952.[2]

Forma-se, em consequência dos ataques às seções nacionais pela direção da IV Internacional, uma ala antipablista que compreende organizações europeias como os partidos inglês e francês, latino-americanas como as da Argentina e Bolívia, os norte-americanos do SWP de Cannon etc. que formam um Comitê Internacional em oposição à direção pablista.

A direção pablista acentua o seu curso pró-stalinista e em direção a uma dissolução nos movimentos nacionalistas. À medida em que as ilusões no stalinismo se dissipam com acontecimentos como a Revolução Húngara de 1956 e a intervenção militar russa, a direção pablista prepara uma guinada que envolverá livrar-se de Pablo e elementos mais comprometidos com a orientação anterior como Posadas.

Já o Comitê Internacional mostra-se não apenas incapaz de formular uma política alternativa coerente como também de conseguir um mínimo de unidade interna, dividido entre tendências que se dirigem à direita como o SWP e ultraesquerdistas como a LSS inglesa de Gerry Healy.

A Revolução Cubana de 1959 acentua todas essas contradições e leva à ruptura dos dois blocos e à reunificação de um novo bloco centrista agora baseado na maioria pablista sob a direção de Ernest Mandel e na ala direita do Comitê Internacional formando o que ficaria conhecido como o Secretariado Unificado da IV Internacional. Esta unificação marca o fracasso da oposição trotskista ao centrismo pablista e a consolidação de uma tendência centrista pequeno-burguesa no comando da antiga IV Internacional, liquidando completamente a organização construída em 1938. Esta organização percorrerá um trajeto de completa adaptação à política pequeno-burguesa com a adoção tática foquista pequeno-burguesa nos anos 60, com um programa nacionalista e concluirá em uma completa adaptação à voga “democrática” imperialista nos anos 80 defendendo o “socialismo com democracia”, expresso no Brasil pela organização Democracia Socialista, que se dissolve no governo de frente popular do PT e pelo PSTU que adota posições claramente pró-imperialistas e contrarrevolucionárias tanto diante da crise dos Estados Operários como da luta das nações oprimidas.

O restante do Comitê Internacional entrará em uma crise paralela de signo oposto. A organização healista recusa-se a reconhecer o caráter proletário da Revolução Cubana e, posteriormente, condenaria a Assembleia Popular da Bolívia como sendo uma frente popular. Destes debates, a fragmentação das forças que se proclamavam trotskista aumentará exponencialmente.

Em 1971, forma-se, entre a forças antipablistas remanescentes, o Comitê de Reorganização da IV Internacional – CORQI – com a Organização Comunista Internacionalista, da França, o Partido Operário Revolucionário Boliviano e a organização argentina Política Operária em uma nova tentativa de agrupamento das correntes antipablistas. Esta tentativa fracassará com a guinada abrupta da organização francesa para políticas sectárias em relação aos sindicatos latino-americanos, os quais considera como organizações não operárias, atreladas ao Estado e propõe a sua destruição e substituição por novas organizações sindicais, “livres”. A tentativa de contestar tais posições leva à utilização de métodos administrativos pela organização majoritária, provocando a expulsão da seção argentina Política Operaria e a ruptura do POR boliviano.

A polêmica, apesar dos entraves burocráticos, é instalada no interior da organização brasileira do CORQI, a OSI, e levará à expulsão sumária dos dissidentes, que, no início de 1979, de agrupam na Tendência Trotskista do Brasil, origem do Partido da Causa Operária.

As organizações que se propuseram a resgatar a IV Internacional da crise mostram-se incapazes de fazê-lo pela sua grande debilidade programática. A tendência geral que se pode discernir neste mais de meio século de crise deve ser resumida em dois fatores: os fundamentos assentados por Leon Trótski permitiram uma sobrevida aos grupos centristas que dirigiram a IV Internacional e suas organizações nacionais. No entanto, esse fato apenas retardou a evolução das tendências centrífugas e à decomposição política e ideológica destas organizações, que agora, está atingindo um ponto culminante com a sua conversão integral à política “democrática” do imperialismo mundial ou, alternativamente, à criação de grupos sectários que são a contrapartida desta primeira tendência.

Está excluída qualquer possibilidade de restauração da IV Internacional sobre a base de manobras organizativas. A IV Internacional somente pode existir sobre a base da luta pelo programa trotskista e esta luta deve ser dar em torno dos acontecimentos políticos do presente.

[1] Para uma melhor compreensão da polêmica consultar “Aonde Vamos?”, de Michel Pablo e a réplica, “Aonde vai Pablo?”, de Bleibtreu-Favre pela seção francesa.



FONTE: Revista Textos

sábado, 28 de maio de 2016

O pensamento vivo de Che Guevara - parte 1


Em 1955, Ernesto Guevara encontrou-se com os revolucionários cubanos no México e em 9 de outubro de 1967 foi assassinado na Bolívia. Portanto, foram pouco mais de 10 anos de intensa militância revolucionária. Podemos dizer que ele foi, fundamentalmente, um homem de ação 




Por Augusto C. Buonicore*



A GUERRA DE GUERRILHAS

Os pontos positivos dos textos sobre a guerra de guerrilha são os que se referem: 1º ao papel necessário da luta revolucionária no processo de transformação social na América Latina no século XX, dominada por governos autoritários e ditatoriais; 2º à definição do inimigo principal dos povos, o imperialismo estadunidense; 3º à importância do internacionalismo, especialmente a solidariedade com os países dominados e agredidos por esse mesmo imperialismo.

Ele via com incredulidade a possibilidade de mudanças efetivas nos países latino-americanos nos marcos da legalidade burguesa, através das eleições. Qualquer tentativa nesse sentido seria barrada pela ação violenta das classes dominantes. Escreveu: "Quando se fala em alcançar o poder pela via eleitoral, nossa pergunta é sempre a mesma: se um movimento popular ocupa o governo sustentado por ampla votação popular e resolve em consequência disto iniciar grandes transformações sociais que constituem o programa pelo qual se elegeu, não entrará imediatamente em choque com os interesses das classes reacionárias desse país? O Exército não tem sido um instrumento de opressão a serviço destas classes? Não será então lógico imaginar que o Exército tomará partido por sua classe e entrará em conflito com o governo eleito? Em consequência pode ser derrubado por meio de um golpe de Estado e aí recomeça de novo a velha história.”

Che escreveu estas palavras premonitórias em 1962 no momento em que o movimento comunista internacional estava se inclinando ao reformismo que emanava da URSS, dirigida por Kruschev. No Brasil, o PCB advogava a via pacífica para a conquista de um novo regime social e, inclusive, defendia o caráter democrático das forças armadas. Nos anos seguintes se confirmaram, de maneira trágica, as teses defendidas por Guevara: em 1964 um golpe militar derrubou o governo democrático de João Goulart e em 1973 caía Salvador Allende no Chile. Na segunda metade da década de 1970, a maioria dos países da América Latina estava dominada por ditaduras militares apoiadas pelos EUA.

É bom ressaltar que Guevara, em várias passagens de sua obra, procurou não absolutizar a luta armada, particularmente a guerrilha rural, e levantou a necessidade da utilização dos mais variados métodos de luta: pacíficas e nãopacíficas. Os revolucionários, afirmou ele, "não podem prever de antemão todas as variantes táticas a serem utilizadas no processo de sua luta por um programa libertador. A qualidade de um revolucionário se mede por sua capacidade de encontrar táticas adequadas a cada mudança de situação, em ter sempre em mente as diversas táticas possíveis e explorá-las ao máximo. Seria um erro imperdoável descartar, por princípio, a participação nos processos eleitorais. Em determinado momento ela pode significar um avanço no programa revolucionário.”

Apesar dessa afirmação correta, ele mesmo tendeu, em vários momentos, a subestimar a luta institucional e por reformas nos marcos do capitalismo. Referindo-se à política adotada pela maioria dos partidos de esquerda na América Latina, afirmou: "Nos países onde esses erros tão graves são cometidos, o povo mobiliza suas legiões, ano após ano, para conquistas que lhe custam imensos sacrifícios e que não têm o mínimo de valor (grifo nosso). São apenas colinas dominadas pelo fogo serrado da artilharia inimiga. O nome delas é: parlamento, legalidade, greve econômica legal, reivindicação por aumento salarial (...). E o pior de tudo é que para ganhar estas posições tem que intervir no jogo político do Estado burguês e, para obter autorização de entrar neste jogo perigoso, é preciso demonstrar que atuará dentro dos estritos limites da legalidade.”

Guevara, neste trecho específico, não reconhece qualquer importância às lutas realizadas nos marcos da legalidade – e da institucionalidade burguesa–, como momentos necessários no processo de acumulação de forças visando à construção de uma alternativa revolucionária. As eleições e as greves, quando bem utilizadas, podem ser importantes instrumentos na formação política das massas trabalhadoras. Todas as conquistas populares, por menores que sejam, podem ter um valor inestimável quando educam as massas para a necessidade de sua organização e da luta. A própria história da revolução cubana é a comprovação viva desta tese leninista.

A fórmula anterior chegou a um impasse quando se agregou a ela a constatação de que nos países onde existissem governos democráticos, eleitos pelo voto popular, e que nos quais se mantivesse certa aparência de legalidade, "o surgimento do foco guerrilheiro seria impossível por não se terem esgotado todas as possibilidades da luta parlamentar”. Mas, se nas democracias burguesas as táticas guerrilheiras estariam de antemão excluídas, só restaria ali a utilização de métodos não-armados, como participação nas eleições, nos sindicatos, nas greves econômicas ou políticas. Neste caso, a luta armada teria uma função defensiva.

Outro problema na avaliação de Guevara era quanto ao papel desempenhado pelo espaço urbano, considerado essencialmente nãorevolucionário. A industrialização e a concentração urbana seriam fatores negativos no processo de ruptura com o capitalismo e o imperialismo. Escreveu ele: "Os países nos quais existem altas concentrações populacionais em grandes centros, devido a um processo inicial de industrialização, têm mais dificuldades em preparar a guerrilha. A influência ideológica dos centros urbanos inibe a luta guerrilheira e incentiva as lutas de massas organizadas pacificamente”. O ambiente urbano reforçaria o processo de "institucionalização” das esquerdas, propiciaria a proliferação de ideias reformistas. Por isto, continuou ele, "mesmo levando em consideração países em que o predomínio urbano é muito grande, continuamos achando que o foco central político de luta deve desenvolver-se no campo”. Essa era a mesma opinião dos defensores da Guerra Popular Prolongada de inspiração chinesa, que defendiam o cerco da cidade pelo campo.

O modelo de revolução de Guevara dava muita ênfase ao "foco guerrilheiro”, embora sua visão sobre ele tivesse passado por importantes mudanças ao longo de sua obra. Depois de afirmar que "nem sempre devemos esperar que todas as condições para a revolução já estejam dadas: o foco insurrecional pode criá-las”, ele sente a necessidade de precisar tal afirmação e completa: "naturalmente não pensamos que todas as condições para a revolução são criadas somente pelo impulso que lhe é dado pelo foco guerrilheiro. Sempre teremos que verificar se existem condições mínimas para o estabelecimento e a consolidação do primeiro foco. É importante destacar que a luta guerrilheira é uma luta de massa, é uma luta popular: a guerrilha, enquanto núcleo armado, é a vanguarda combatente do povo, sua grande força assentada na massa da população (...). Por isto temos que recorrer à guerra de guerrilha quando se tem o apoio majoritário da população (...). O guerrilheiro tem que contar com o apoio da população local. É uma condição sine qua non.” Em poucos anos, Che e seus companheiros passariam, na prática, a negar a necessidade da existência de condições objetivas e subjetivas para a eclosão dos movimentos revolucionários, caindo em posições espontaneístas e voluntaristas que teriam para ele trágicas consequências.

A experiência da guerrilha boliviana revelou os equívocos de muitas das concepções defendidas pelos revolucionários cubanos, entre elas a afirmação de que já existiriam as condições objetivas para a eclosão de uma revolução socialista em toda a América Latina, cabendo apenas a ação enérgica de um pequeno grupo de revolucionários para se constituírem as condições subjetivas. Nos seus derradeiros momentos, Guevara escreveu: "Dia de angústia que em certo momento pareceu ser o nosso último dia. (...) O exército está mostrando maior efetividade de ação. E a massa camponesa não nos ajuda em nada e se converte em delatores”. Eram 17 homens, contingente maior que aquele que havia se alojado na Sierra Maestra, mas as condições eram agora completamente adversas. O camponês boliviano não se assemelhava ao camponês cubano, que Che descreveu em seu artigo "Cuba, exceção histórica?”. A realidade boliviana era completamente diferente da existente em Cuba no final da década de 1950.

Se, de um lado, era correta a compreensão de Che de que a revolução deveria ser continental, que levou a uma valorização do internacionalismo, particularmente da solidariedade hemisférica; de outro, acabou levando à construção de uma tática esquemática e anti-histórica. Os revolucionários cubanos não conseguiram compreender que, apesar da semelhança de muitos de seus problemas, os países latino-americanos possuíam profundas diferenças entre si. As revoluções não poderiam simplesmente pular as fronteiras nacionais. Em novembro de 1967 um documento do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) afirmava: "A revolução será feita em cada país pelo seu próprio povo. O problema nacional é um dos fatores básicos da luta emancipadora nas nações oprimidas pelo imperialismo. Todo país tem suas peculiaridades, sua formação histórica e suas tradições, sua cultura e composição étnica, seus hábitos e costumes. Todo povo terá que encontrar as formas específicas de abordar a revolução”. A verdadeira revolução não poderia ser importada ou exportada.

Guevara acertou na compreensão de que os Estados Unidos eram o principal inimigo dos povos latino-americanos; no entanto, a tática elaborada, particularmente após 1965, não correspondeu exatamente a esta visão. Ele concluiu que o caráter da revolução em todo o continente já era socialista e havia passado, sem as mediações necessárias, a construir uma tática e estratégia assentadas nessa conclusão imprecisa. Assim, reduziu-se o campo de alianças possíveis no combate ao imperialismo estadunidense e às ditaduras implantadas em quase toda a América Latina.

Esta era uma negação da própria experiência revolucionária cubana. Poucos anos após a revolução cubana, em 1962, Guevara havia escrito: "Não podemos considerar como excepcional o fato de que a burguesia, ou pelo menos boa parte dela, se mostre favorável à guerra revolucionária contra a tirania (...). E, se levarmos em consideração as condições em que se deu a guerra revolucionária e a complexidade das tendências políticas opostas à tirania, não podemos tampouco estranhar a atitude neutra ou pelo menos não diretamente ofensiva de certos elementos latifundiários frente às forças insurrecionais”. Continuou ele: "é compreensível que a burguesia nacional, estrangulada pelo imperialismo e a tirania (...), visse com bons olhos esses jovens rebeldes das montanhas castigando o exército de mercenários, braço armado do imperialismo. Foi assim que forças nãorevolucionárias ajudaram de fato a facilitar o caminho do advento do poder revolucionário.”

Neste trecho ele falava de uma burguesia que se mostrava favorável à "guerra revolucionária contra a tirania” e até da postura neutra de "elementos latifundiários” diante da revolução em curso. Esse fenômeno – que foi muito bem aproveitado por Fidel Castro – ajudou os revolucionários cubanos a chegarem ao poder e, depois de uma série de fases, a implantarem o socialismo.

O documento do PCdoB, polemizando contra aqueles que advogavam a revolução socialista imediata em toda a América Latina, afirmava: "Para lutar consequentemente contra o domínio dos Estados Unidos nos países latino-americanos e em todo o mundo é preciso adotar uma política capaz de mobilizar o máximo de forças contra esse inimigo (...). Quando se coloca, na atual etapa da luta, o socialismo como objetivo imediato, na prática restringe-se o campo das forças revolucionárias e amplia-se o do imperialismo (...). O exemplo de Cuba mostra que não foi com bandeiras socialistas que ali se iniciou e se tornou vitoriosa a revolução”. As bandeiras que unificaram o povo para derrubada de Batista foram, fundamentalmente, democráticas e nacionais. A revolução radicalizou-se e assumiu seu caráter socialista em 1961, após a malograda tentativa imperialista de invasão através de Playa Giron (Baía dos Porcos). Cuba foi um típico caso de revolução em duas etapas.

Na sua última carta endereçada aos seus pais, antes de partir para sua última trincheira na Bolívia, Guevara escreveu: "Outra vez sob meus calcanhares o lombo de Rocinante, retomo o caminho com meu escudo no braço (...). Muitos dirão que sou aventureiro, eu sou de fato, só que de um tipo diferente, daqueles que entregam a pele para demonstrar suas verdades”.Apesar de possíveis erros cometidos, Che era acima de tudo um revolucionário socialista. Para ele, valeria a mesma descrição que Lênin fez a respeito de Rosa de Luxemburgo, utilizando um velho ditado russo: "Às vezes as águias descem e voam entre as aves do quintal, mas as aves do quintal jamais se elevarão até as nuvens”. Essa é a diferença entre o aventureiro pequeno-burguês e um verdadeiro revolucionário.

OS PROBLEMAS DA TRANSIÇÃO SOCIALISTA

Após a revolução, Guevara assumiu a direção do setor industrial do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA); em 18 de novembro de 1959 foi indicado à presidência do Banco Nacional de Cuba e, por fim, ministro da Indústria de Cuba. Assim, se tornou o principal responsável pela direção dos assuntos econômicos do poder popular e socialista; e justamente ele: um médico que gostava de dizer que jamais estudara seriamente economia. Uma das suas primeiras medidas à frente do Banco de Cuba foi baixar o seu próprio salário de cinco mil para mil e duzentos pesos. O exemplo pessoal era uma arma poderosa na luta ideológica que se travava.

Em 1960, viajou, pela primeira vez, aos países socialistas e com isso assinou inúmeros tratados comerciais. Aproveitou o momento e estudou atentamente essas diferentes experiências, simpatizando-se por algumas delas. Isso lhe custou muitas críticas do governo estadunidense. Fidel Castro ainda não havia decidido seguir abertamente a via do socialismo– afirmava-se defensor do terceiro-mundismo.

O governo revolucionário buscou o caminho da nacionalização das empresas estratégicas e isto atingiu em cheio os interesses do imperialismo. A maioria dos bancos, das refinarias, das empresas importadoras e exportadoras era dos Estados Unidos e foi atingida diretamente pelas medidas nacionalistas. Em 8 de janeiro de 1961 os EUA romperam relações diplomáticas com Cuba e, em 17 de abril, apoiaram a invasão de Playa Giron por mercenários cubanos. Depois desses atos agressivos, Fidel se declarou marxista-leninista e afirmou que a revolução cubana passaria a seguir a via do socialismo. Reforçou-se a aproximação econômica e política com a URSS e os países do Leste Europeu.

Desenvolvimento Industrial e Estímulos Morais

No início da década de 1960 estabeleceu-se uma rica polêmica sobre quais seriam os caminhos para se reestruturar a economia da nova Cuba que optara pelo socialismo. De um lado, ficou Guevara e, de outro, os economistas soviéticos e seus aliados na ilha, os antigos membros do Partido Socialista Popular (comunista).

No seu plano quadrienal de desenvolvimento Guevara previa aumentar o ritmo da industrialização, diversificar a economia, reduzir a importância da monocultura açucareira, estatizar as grandes empresas e limitar as importações. Este foi o modelo adotado pela União Soviética e China, que havia dado bons resultados.

Os soviéticos, por sua vez, não viam razão para que Cuba abandonasse a monocultura de açúcar, afinal esta era a sua principal atividade econômica. Eles, pelo contrário, se propunham a comprar toda a produção e fornecer as mercadorias industrializadas de que os cubanos necessitavam. Segundo os soviéticos, deveria ser estabelecida uma relação de complementaridade entre a economia cubana e a do Leste Europeu e URSS. A proposta, em curto prazo, parecia muito compensadora aos cubanos. Pensando em longo prazo, as coisas poderiam não ser tão boas assim, pois a economia da ilha seria colocada na dependência do que aconteceria na URSS.

As concepções econômicas de Che poderiam ser encontradas nas palestras que fez logo no início da revolução. Afirmou ele: "todos estes conceitos de soberania política, de soberania nacional são fictícios, se ao lado não existir a independência econômica. (...) Fincamos os pilares da soberania política no dia 1º de janeiro de 1959, mas eles só estarão totalmente consolidados no momento em que conseguirmos a independência econômica absoluta. (...) Ainda não podemos proclamar diante dos túmulos de nossos mártires que Cuba é independente economicamente. Não o pode ser enquanto um simples barco detido nos Estados Unidos provoque a paralisação de uma fábrica em Cuba, enquanto uma ordem qualquer de algum monopólio paralise aqui um centro de trabalho. Cuba será independente quando tiver desenvolvido todos os seus meios, todas as suas riquezas naturais e quando tiver (...) a certeza de que não poderá haver ação unilateral de nenhuma potência estrangeira para impedi-la de manter o ritmo de produção, de manter todas as suas fábricas produzindo o máximo possível dentro da planificação que estamos pondo em prática.” (Soberania Política e independência econômica – 20-03-1960).

Após a célebre decisão de Cuba seguir o caminho do socialismo, este país passou pelas mesmas dificuldades que as demais revoluções vitoriosas: a fuga dos gerentes, dos técnicos, dos engenheiros e até mesmo dos trabalhadores especializados. Este quadro foi agravado pelo estado de desordem em que se encontrava a economia. Era preciso pô-la para funcionar, aumentar a produtividade do trabalho, vencer o absenteísmo e a indolência: formas de resistência à exploração capitalista que acabam se enraizando na consciência social e devem ser superadas após a vitória da revolução socialista.

Continua.


* historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros e Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos publicados pela Editora Anita Garibaldi.



Fonte: Grabois


BIBLIOGRAFIA

AYERBE, Luiz Fernando. A Revolução Cubana. São Paulo: Unesp, 2004.
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
DEL RIO, Eduardo (Rius). Conheça Che Guevara. São Paulo: Proposta.
GUEVARA, Ernesto Che. A Guerra de Guerrilhas. São Paulo: Edições Populares, 1982.
_______. Cartas. São Paulo: Edições Populares, 1987.
_______.Coleção Grandes Cientistas Sociais/ Política (organizada por Eder Sader). São Paulo: Ática, 1988.
HARNECKER, Marta. Fidel, a estratégia política da vitória. São Paulo: Expressão Popular, 2000.
LOWY, Michael. O pensamento de Che Guevara. São Paulo: Expressão Popular, 2002.


FONTE: Adital

terça-feira, 26 de abril de 2016

A opção socialista não faz parte de plano de Governo



O povo em Brasilia

Por Aluizio Moreira


Parece evidente que daqui há algumas semanas estejamos assistindo, com uma grande cobertura da mídia, o vice-presidente da República assumir os destinos do país. Sem dúvida "para o bem de nossas famílias",  "para o bem dos nossos filhos, netos, sobrinhos, avós, noras, cunhadas, sogras. . ." 

Sem a interferência do STF quanto à desqualificação do processo do impeachment como defendeu o advogado da União, e considerando que a Corte poderá não analisar o mérito do processo quanto ao crime de responsabilidade, mas apenas sobre o rito adotado pelo Congresso, dificilmente a presidente da República se livrará do seu impedimento. Junto a isso é quase certo que o Senado deverá referendar a aprovação conseguida na Câmara dos Deputados.

Esse quadro de instabilidade politica que atinge nestes dias sua maior intensidade e os impasses gerados na disputa pelo poder por uma elite conservadora, já colocávamos na postagem de 02.11.14, “O Brasil e as expectativas de mudanças ou de recuos”, logo após a vitória de Dilma para o seu segundo mandato. 

Escrevíamos naquela postagem, que as opções politicas do Governo e da sociedade civil seriam: primeira o Governo tender para uma guinada mais à esquerda; segunda o Governo ceder às pressões das forças politicas da oposição em troca da governabilidade com o risco de perder paulatinamente o controle  sobre a situação.

Afora estas duas opções, só haveria uma alternativa para a sociedade civil: os movimentos sociais (urbanos e rurais organizados) tomarem em suas mãos a tarefa de transformar (não uma mudança qualquer) este país. 

Evidente que as opções – guinada do Governo para a esquerda e manter a governabilidade – estariam fora de cogitações. Não só pela politica do Partido dos Trabalhadores de gerenciar o sistema capitalista com a implantação de algumas reformas, como pela prática de “costurar” alianças com tendências cada vez mais hostis e conservadoras, que se apresentavam desde as primeiras horas das campanhas presidenciais, ávidas de assumir o poder político a todo custo. 

Quanto à ação politica de algumas forças que chamaríamos “esquerda socialista radical” (para diferenciar de qualquer tendência que se autodenomine ou se considere esquerda ou socialista), que de uma forma ou de outra apontavam e apontam ainda para uma opção não capitalista dentro dos marcos do sistema na sua fase neoliberal, esquecem uma verdade histórica: a burguesia jamais cederá às mudanças que apontem para o fim de sua dominação. 

Ao procurar promover uma maior participação politica dos movimentos sociais junto às instâncias governamentais como foi tentado pelo Governo Dilma através do Decreto Presidencial nº 8.243 de 23 de maio de 2014, que criava a Politica Nacional de Participação Social (PNPS), criticou-se duramente  o Governo que foi acusado de incentivar a politica “bolivariana”, que abria espaços para a “cubanização” do país.  Como era de se esperar, o Decreto foi rejeitado pelo plenário da Câmara dos Deputados em 26 de outubro, que contou com os votos dos partidos DEM, PPS, SDD, PV, PSDB, PSD, PSB, PROS e PRB, que não por mera coincidência, votaram todos a favor do impeachment. 

Por mais progressistas que tenham sido as conquistas dos Governos petistas de Lula e Dilma, deveremos nos lembrar que há um patamar de permissibilidade por parte da burguesia representada no Parlamento brasileiro,  para que apenas algumas mudanças aconteçam. Ou seja, mesmo que a pressão popular resulte em ganhos para a maioria da população, há um limite imposto pela classe dominante para esses ganhos. O que não invalida as conquistas alcançadas, nem deveria resultar em imobilismo.  

O que dá para entender, é que a opção socialista não poderá ser decorrente de uma ação, de um plano de Governo “administrador” de uma sociedade capitalista, por mais à “esquerda” que este Governo se coloque.

A saída pela esquerda só será possível com a organização extraparlamentar da população, e com a mobilização da sociedade civil, independentemente dos Partidos cujos objetivos não vão além da disputa para alcançar o poder politico.  


Digo isto porque ingenuamente alguns partidos da “esquerda socialista radical” procuram ganhar espaços nos quadros da institucionalidade, na esperança de que no dia seguinte nos acordaremos em uma sociedade não capitalista.