quarta-feira, 18 de outubro de 2017

As mulheres militantes na grande Revolução de Outubro



Por José Levino


Há uma infinidade de obras sobre a Revolução Russa e seus grandes líderes. Porém, sobre a participação das mulheres não há um número significativo de publicações, à exceção das obras de Alexandra Kollontai, que foi a única ministra do primeiro governo bolchevique. A libertação da mulher foi o eixo fundamental da sua vida, como escritora e como militante. Num artigo raro, publicado no Diário Feminino de Moscou, edição de 11 de novembro de 1927, é a própria Kollontai que fala sobre essa temática. Segue um extrato do seu artigo. 

As mulheres que participaram da Grande Revolução de Outubro – quem eram elas? Indivíduos isolados? Não, havia multidões delas; dezenas, centenas e milhares de heroínas anônimas que, marchando lado a lado com os operários e camponeses sob a Bandeira Vermelha e a palavra-de-ordem dos Sovietes, passou por cima das ruínas do czarismo rumo a um novo futuro…

Alexandra Kollontai
Se alguém olhar para o passado, poderá vê-las, essa massa de heroínas anônimas que outubro encontrou vivendo nas cidades famintas, em aldeias empobrecidas e saqueadas pela guerra… O lenço em sua cabeça, uma saia gasta, uma jaqueta de inverno remendada… Jovens e velhas, mulheres trabalhadoras e esposas de soldados camponesas e donas-de-casa das cidades pobres. Mais raramente, muito mais raramente, secretárias e mulheres profissionais, mulheres cultas e educadas. Mas havia também mulheres da intelligentsia entre aqueles que carregavam a Bandeira Vermelha à vitória de Outubro – professoras, empregadas de escritório, jovens estudantes nas escolas e universidades, médicas. Elas marchavam alegremente, generosamente, cheias de determinação. Elas iam a qualquer parte que fossem enviadas. Para a Guerra? Elas colocavam o quepe de soldado e tornavam-se combatentes no Exército Vermelho. Se elas portassem fitas vermelhas no braço, então corriam para as estações de primeiros-socorros para ajudar o Front Vermelho contra Kerenski na Gatchina. Trabalhavam nas comunicações do exército. Trabalhavam felizes, convictas de que alguma coisa significativa estava acontecendo.  Nas aldeias, a mulher camponesa (seus maridos tinham sido enviados para a Guerra) tomava a terra dos proprietários e arrancava a aristocracia dos postos onde ela se alojou por séculos.

Ainda não tinham certeza do que exatamente queriam, pelo que lutavam, mas sabiam uma coisa: não iriam continuar suportando a guerra. No ano de 1917, o grande oceano de humanidade se levanta e se agita, e a maior parte desde oceano feita de mulheres…Algum dia a historia escreverá sobre as proezas dessas heroínas anônimas da revolução, que morreram na Guerra e amargaram incontáveis privações nos primeiros anos seguintes à revolução, mas que continuaram a carregar nas costas o Estandarte Vermelho do Poder Soviético e do comunismo.

Entretanto, fora deste mar de mulheres de lenços e toucas surradas inevitavelmente emergem as figuras daquelas a quem os historiadores devotarão atenção particular, quando, muitos anos depois, eles escreverem sobre a Grande Revolução de Outubro e seu líder, Lênin.

Nadezhda Krupskaya
A primeira figura que emerge é a da fiel companheira de Lênin, Nadezhda Konstantinovna Krupskaya, vestindo seu vestido cinza liso e sempre se esforçando para permanecer em segundo plano. Via e ouvia tudo, observando tudo o que acontecia; então ela poderia mais tarde fornecer um relato completo para Vladimir Ilich, adicionar seus próprios hábeis comentários e expor uma ideia sensata, apropriada e conveniente.

Ela trabalhou incansavelmente como braço direito de Vladimir Ilich, ocasionalmente dando depoimentos e relatando críticas nas reuniões do partido. Em momentos de grande dificuldade e perigo, quando muitos camaradas firmes perderam o ânimo e sucumbiram às dúvidas, NadezhdaKonstantinovna permaneceu sempre a mesma, totalmente convencida da justiça da causa e de sua vitória certa. Ela transmitia inabalável confiança, e sua firmeza de espírito, escondia uma rara modéstia, sempre contaminava com seu ânimo todos aqueles que entravam em contato com a companheira do grande líder da Revolução de Outubro.

Outra figura que se destaca – outra leal parceira de Vladimir Ilich, uma camarada-em-armas durante os anos difíceis do trabalho clandestino, secretária do Comitê Central do Partido, Yelena Dmitriyevna Stassova. Inteligente, com uma rara precisão, e uma excepcional capacidade para o trabalho, uma rara habilidade para “apontar” as pessoas certas para o trabalho. Em suas mãos, segurava um caderno de anotações, enquanto ao seu redor multidões de camaradas do front, trabalhadores, guardas vermelhos, membros do partido e dos Sovietes, buscavam respostas claras ou ordens.

Yelena Stassova
Stassova carregou a responsabilidade por muitos negócios importantes, mas se um camarada demonstrava necessidade ou angústia nesses dias tempestuosos, ela sempre podia auxiliar, fornecendo explicações, ela fazia o que estava ao seu alcance. Ela não gostava de ser o centro das atenções. Sua preocupação não era com ela mesma, mas com a causa.

Pela nobre e estimada causa do comunismo, Yelena Stassova experimentou o exílio e a detenção nas penitenciárias do regime czarista, deixando-a com a saúde prejudicada… Em nome da causa ela era firme como aço. Mas em relação ao sofrimento de seus camaradas, ela demonstrava a sensibilidade e a receptividade que só se encontram em uma mulher com um coração afetuoso e nobre.

Klavdia Nikolayeva era uma mulher trabalhadora de origem muito humilde. Ela uniu-se aos bolcheviques já em 1908, nos anos da reação, e suportou o exílio e a prisão… Em 1917, ela retornou a Leningrado e se tornou a organizadora da primeira revista para as mulheres trabahadoras, Kommunistka. Ela ainda era jovem, cheia de ânimo e ansiedade. Então ela segurava firmemente o estandarte, e corajosamente declarava que as trabalhadoras, esposas de soldados e camponesas precisavam ingressar no partido. Ao trabalho, mulheres! Vamos defender os Sovietes e o Comunismo!  Ela era uma daquelas que lutou em duas frentes – pelos Sovietes e o comunismo, e ao mesmo tempo para a emancipação das mulheres.

Konkordia Samoilova
Os nomes Klavdia Nikolayeva e Konkordia Samoilova, que morreram exercendo funções revolucionárias em 1921 (vítimas da cólera), são indissoluvelmente ligados aos primeiros e mais difíceis passos do movimento das trabalhadoras, particularmente em Leningrado. Konkordia Samoilova foi uma militante do partido de incomparável abnegação, excelência, uma oradora metódica que sabia ganhar os corações dos trabalhadores. Aqueles que trabalhavam ao seu lado lembrarão por muito tempo de Konkordia Samoilova. Ela era simples nos costumes, simples na aparência, exigente na execução das decisões, severa com ela mesma e com os outros.

Particularmente notável é a gentil e encantadora figura de Inessa Armand, que foi incumbida de um trabalho partidário muito importante na preparação da Revolução de Outubro, e que depois contribuiu com muitas ideias criativas para o trabalho entre as mulheres. Com toda sua feminilidade e bondade nas maneiras, Inessa Armand era inabalável em suas convicções e capaz de defender aquilo que ela acreditava correto, mesmo quando deparada com temíveis oponentes. Depois da revolução, Inessa Armand se dedicou à organização do amplo movimento das trabalhadoras.

Um imenso trabalho foi feito por Varvara Nikolayevna Yakovleva durante os difíceis e decisivos da Revolução de Outubro em Moscou. No terreno de batalha das barricadas, ela mostrou a determinação meritória de uma líder do quartel-general do partido. Muitos camaradas disseram na ocasião que sua determinação e coragem inabaláveis foi o que deu ânimo aos vacilantes e inspirou aqueles que haviam perdido suas forças.

  Anna Yelizarova-Ulyanova

Maria Ulyanova
Ao recordar das mulheres que tomaram parte na Grande Revolução de Outubro, mais e mais nomes e faces surgem como mágica da memória. Poderíamos deixar de honrar a memória de Vera Slutskaya, que trabalhou de modo abnegado na preparação para a revolução e que foi morta pelos Cossacos no primeiro front Vermelho próximo a Petrogrado? Podemos nos esquecer de Yevgenia Bosh, com seu temperamento inflamado, sempre pronta para a batalha? Ela também morreu no trabalho revolucionário.  Podemos nos omitir de mencionar aqui dois nomes intimamente ligados com a vida e a atividade de V. I. Lênin – suas duas irmãs e companheiras em armas, Anna Ilyinichna Yelizarova e Maria Ilyinichna Ulyanova?

…E a camarada Varya, das oficinas de linhas de trem em Moscou, sempre animada, sempre inquieta? E Fyodorova, trabalhadora têxtil de Leningrado, com seu rosto amável e sorridente e seu destemor quando estava lutando nas barricadas?

É impossível listar todas elas, e quantas delas permanecem desconhecidas? As heroínas da Revolução de Outubro formavam todo um exército, e embora seus nomes estejam esquecidos, sua abnegação vive em cada vitória daquela revolução, em todos os ganhos e façanhas desfrutadas pelos trabalhadores da União Soviética.

É lógico e incontestável que, sem a participação das mulheres, a Revolução de Outubro não traria a Bandeira Vermelha da vitória.

Glória às trabalhadoras que marcharam sob a bandeira vermelha durante a Revolução de Outubro. Glória à Revolução de Outubro que libertou as mulheres!

José Levino, historiador


FONTE: A Verdade

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O Socialismo Utópico brasileiro


Por John Kennedy Ferreira



A divulgação das ideias socialistas no Brasil é totalmente original em relação aos demais países do subcontinente. Esses países realizaram Revoluções de Independência, instaurações de Estados Republicanos alterações e mudanças nas instituições.

O processo brasileiro ocorre de modo distinto, aqui as instituições praticamente eram as mesmas da colônia e a ausência de um comércio e de uma indústria desenvolvidas deixava um vazio nas relações sociais. Ou seja, trata-se de um país agrário onde a mão de obra é escrava e ao mesmo tempo, tem-se uma classe dominante cônscia de seu papel histórico e das dificuldades de seu presente.

El Brasil Independiente desde 1822 bajo La fórmula de um gobierno imperial orientado por uma oligarquia culta penetrada por La masonaria, presentara historicamente uma combinación muy apta para AL desarrollo de lãs nuevas ideas de “reforma social” de tipo cientificista. Esas minorias, por definición liberadas del ideário tradicionalista, son conscientes de atraso del pais de sudebilidad y em definitiva de su in evitable sometimiento a grandes pontencias europeas, antes Portugal y a hora Inglaterra.
El “proyecto social” del saintsimonísmo, especialmente em la version que protagonizan constructores y administradores de ferrocarriles como Cichel Chevalier y Prosper Enfantín, los banqueros Péreire, y e otros empresários y economistas, partidários de expansión de la ordenacíon econômica de La socierdad, de la eficácia del Estado, tuvo que encontrar necesariamente eco em lãs altas esferas de la economia y La política brasilenas (VÉASE  apud  RAMA, 1996, p.LV).

Ademar Leonidio chama atenção para uma particularidade que define a diferença entre o pensamento socialista no Brasil e noutros países vizinhos.

É difícil falar no Brasil em uma linha evolutiva que leva da radicalização dos ideais de liberdade e de igualdade ao Socialismo Utópico, como se deu na Europa. Quando tais ideias “aportaram” no Brasil, na década de quarenta do Século XIX, encontraram uma situação sui generis: ausência de uma burguesia enquanto classe social distinta e muito pouco trabalho livre. O comércio e o artesanato, embora com pequenas diferenças regionais, continuavam muito reduzidos. Além disso, predominava, mesmo aí, o trabalho escravo, conforme testemunhou Tollenare alguns anos antes:

Um mestre-de-obras, um marceneiro, um carpinteiro, um ferreiro, um pedreiro, um chefe, enfim, de qualquer destas profissões, em lugar de assalariar operários livres, compra negros e os instrui (…) Portanto, era nas camadas médias urbanas – profissionais liberais, burocratas e até homens de Estado – que as ideias socialistas, como todas as ideias novas que vinham de fora, encontrariam uma base para sua difusão. Maselas em si não representavam nenhuma classe social concreta. (LEONIDIO, 2009, p.99-100)

Portanto a naturalização do discurso socialista no Brasil, ocorrerá de forma distinta do discurso que predominou na Europa, especial na revolução de 1848, onde o houve um encontro entre o Socialismo, Democracia e Republicanismo e que foi o motivo de encantamento dos socialistas utópicos de outros países latino-americanos.

Entre os pioneiros do Socialismo no Brasil, destacam-se os médicos franceses Jean Maurice Faivre e Jean Benoit Mure, ambos discípulos de Charles Fourier. Faivre nascido em 1795 na França forma-se em Medicina em 1825 onde tomou contato com as ideias de Saint-Simon e Charles Fourier, tornando-se um adepto deste último.

Jean Maurice Faivre, pioneiro
do socialismo no Brasil, década
de 1840 (fonte: Wilkepedia)

O Brasil em 1826. O Brasil é um país recém-independente.  Faivre, começa a trabalhar no Exército e  pouco é indicado para o Hospital da Corte e ainda figurará como um dos cinco fundadores da Academia Imperial de Medicina. Na década de 1840, valendo-se de suas relações na Corte e com a Imperatriz Tereza Cristina, do qual era médico particular, obtém fundos para financiar em 1847 um falanstério no meio da selva na província de São Paulo (hoje Parará). O Falanstério Teresa Cristina as margens do rio Ivaí. O núcleo inicial era composto por 25 famílias e outras vieram da França. (MANFREDINI, 2013).
Faivre imaginou que se refugiado na selva, junto com seus aderentes, desenvolvendo vida livre e igualitária, estaria a salvo das iniqüidades – sobretudo morais – que haviam assolados o mundo das cidades. (idem 2013).

A Colônia apresentou como uma de suas marcas a proibição da escravidão isso, isso quarenta  anos antes da abolição no Brasil. Faivre distribuiu terras e ajudou na quitação dividas.

Nos primeiros anos a Colônia expressou algum progresso com a produção de rapadura e aguardente, construiu uma olaria. Mas o isolamento fez com que aos poucos as famílias fossem abandonando Tereza Cristina e em 1858, vítima de uma febre Faivre morreu e a Colônia pouco depois acabou.

O presidente da província do Paraná não deixa de tecer elogios a ação pioneira e a retidão moral e política de Faivre como um exemplo de homem puro e dedicado a uma causa. (MANFREDINE, 2013)

A outra experiência deu-se com o Dr. Jean Benoit Mure, médico que veio para o Brasil em 1841. Aqui  tem como missão convencer a conservadora Corte brasileira a lhe dar estrutura para a construção de um falanstério no Brasil. Após  alguns anos de trabalho consegue, junto ao Brigadeiro Machado Oliveira terras na região de Sai em Santa Catarina para construção de seu falanstério. (QUEIROZ, 1990, p10).

Para tanto traz da França um grupo de colonos que  logo se dividem entre as duas lideranças; a primeira de Mure e a segunda de Michel Derrion. Que funda outro falanstério na região de Palmital. O fato é que ambas tentativas deram em fracassos na década de 1840, movidas por brigas internas, interesses particulares que desafiavam o dogma de Charles Fourier de construção do Paraíso na terra. (QUEIROZ , 1990, p 11)

Apesar do fracasso, Mure continuou a divulgar o fourierismo e o socialismo através de seu jornal o “Socialismo da Província” e consegue que seja aprovado na conservadora Corte imperial a construção de um novo falanstério  que é saudado assim pelo jornal de Mure (LEONÍDIO, 2009,p104).

O Brasil é o primeiro país onde o governo acolhe e protege até a ciência social, o fourierismo! O governo do Brasil é o primeiro que prestou às ideias sociais o auxílio da sua legislação! Há quatro anos, de acordo com as câmaras, o governo autorizou a formação de um falanstério; hoje um ilustre senador do Império colocando-se à frente do progresso social no seu país, acaba de obter de Sua Majestade Imperial o decreto que publicamos abaixo e de cuja execução pode datar uma nova era de verdadeira prosperidade (O Socialista da Província do Rio de Janeiro, 06/08/1845).

Acreditava-se que, com o amparo benevolente do imperador Don Pedro II, o Brasil seria o primeiro país onde se veria realizada a concepção falansteriana de Fourier. O “ilustre senador” ao qual se refere a citação é Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e o “falanstério”, a Sociedade Família Industrial de Ibicaba perto de Limeira, interior de São Paulo.“ (LEONÍDIO, idem 104)

Leonídio chama atenção para a relação conservadora existente entre as ideias socialistas e a sua naturalização no Brasil. exceto a primeira experiência realizada por Faivre, em nenhum momento a Escravidão, a propriedade e a monarquia foram questionadas ou as ideias republicanas e democráticas e igualitárias foram divulgadas. (LEONÍDIO , idem p105)

Vale destacar também que a primeira vez que o socialismo é mencionado no pais será através do jornal “O Globo”, jornal filosófico, literário industrial e científico, fundado em 1844 por A. Guimarães que apresenta as ideias do socialista francês como um antídoto à anarquia urbana, como um meio de construir novas colônias agrícolas e ocupar a terra  ociosa.

O mesmo jornal se preocupa em tranquilizar os seus leitores informando que o pensamento de Fourier é uma forma de combater as ideias revolucionárias em voga na Europa  e também evitar que a miséria e a pobreza se alastrem pelas cidades brasileiras. (LEONÍDIO, idem p101)

Em Pernambuco surgiram vários jornais que divulgaram as ideias socialistas. Tanto  Carlos Rama como Leonidío destacam a presença de José Ignácio Abreu e Lima como importante socialista brasileiro.  Este era filho de um revolucionário de 1817 que teve se exilar nos Estados Unidos e depois se juntou a Simon Bolivar. Abreu e Lima  participou do Exército bolivariano, tendo atuado em  várias batalhas, destacando-se com heroísmo e dando baixa com a patente de General. Inspirado na obra de Lamannais escreve o seu livro “O Socialismo”, considerado por Rama como o mais importante trabalho sul-americano sobre o socialismo dessa época. Nesta obra mostra conhecimento das obras de Saint Simon, Fourier e Proudhon. (RAMA, 1996, p. XLIX).

A presença do engenheiro Louís Léger Vauthier, como chefe de Obras Públicas do Pernambuco também denota a introdução das ideias socialistas ligadas a Fourier nessa região. Vauthier divulgará o Socialismo através de círculos de discussão e também  contribuirá no Jornal “O Progresso” de seu amigo e também socialista Antonio Pedro Figueiredo.

Antonio Pedro Figueiredo foi importante intelectual  o primeiro a  destacar a necessidade de uma divisão de terras no país. Essa divisão era meio fantasiosa imaginava mais uma vontade distributiva do que uma legislação. Figueiredo estudou o curso de filosofia socialista de Victor Cousin  e passou a defender e a divulgar as ideias socialistas através do Jornal” O Progresso”.

Borges Fonseca foi o mais radical dos pensadores socialistas, defendeu a República e divulgou em seus vários jornais ideias que iam do fim do Império a reformas dentro do mesmo. Destacam-se em suas ideias o direito ao sufrágio universal e o direito ao trabalho. Borges Fonseca e Inácio Bento Loyola chegaram a fazer tímidas defesas do fim da Escravidão. (QUEIROZ, 1990, p.13) Mas deve ser ressaltado os limites e as contradições que o contexto brasileiro – profundamente conservador – impunha às ideias do Socialismo Utópico, que começaram a se propagar no Brasil por volta de meados do Século XIX. Um conservadorismo que tendia a hiper-valorizar a hierarquia, acima da Liberdade e da Igualdade entre os homens, a ostentar uma verdadeira obsessão pela ordem, antes e acima de qualquer ideal de progresso e reforma. Propunha articular com as ideias modernas, mas sem jamais levá-las às últimas consequências, antes, adaptando-as e impondo-lhes limites tais, que do delas quase nada restasse. Seja como for, as ideias do Socialismo Utópico tiveram sua passagem pelo Brasil, como tiveram as do Liberalismo.

Na conclusão de seu trabalho, Leonídío,  nos dá uma demonstração dos limites expressados pelos pioneiros do Socialismo Utópico brasileiro, adaptado às regras, dialogando sempre com as hierarquias, sem ter presença nas atividades sociais e nos movimentos políticos que existiram em larga escala nessa primeira metade do Século XIX.

Destaca-se, também, a preocupação utópica com uma sociedade, mas o que implicava em conciliar com os interesses das oligarquias na manutenção da Escravidão, da Monarquia. A seu modo, as políticas utópicas responderam  parte dos anseios das classes dominantes, de então, em combater a ociosidade que crescia nas cidades brasileiras, especialmente, no Rio de Janeiro.

Suas propostas de organização coletiva no campo eram  bem acolhidas junto aos círculos de poder dominante e expressaram mais as preocupações desses círculos em formular projetos alternativos para ocupações do vasto e vazio território brasileiro através de colônias agrícolas, que ampliassem  a ocupação defensiva do território nacional, como também eliminar o grupos marginais que povoavam as cidades, do que construir um novo projeto de sociedade.

A legitimação de uma hierarquia de raças, de classes parecia no discurso socialista algo natural.  Essa era a opinião de Abreu e Lima e também de Albuquerque e Melo  Jornal “A Verdade” 1848

Nós não podemos deixar de ter escravos (…) por isso a igualdade que proclama a República não pode ser entre nós para os escravos, e, quem deseja o governo republicano no Brasil não pode querer acabar com a Escravatura, porque será isto o mesmo que aniquilar a república (LEONIDIO, idem p.114)

O interessante  comparar é que  no Chile, Uruguai, Argentina as manifestações dos socialistas apontavam para a superação do passado colonial e firmavam a República e a Democracia como pressupostos, inspirados pela Revolução de 1848  . No Brasil as ideias socialistas se acomodaram ao Império e fizeram parte do discurso da ordem, sejam as colônias falanstérias, seja a Colônia  Cecília, de inspiração anarquista, fundada em Palmeira, com auxílio inicial do Império em 1890, por Giovanni Rossi.

Foto de Giovanni Rossi e a Colonia Cecília, década de 1890. Fonte: Gazeta do Povo

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/dos-mitos-a-verdade-sobre-a-colonia-cecilia-ekg9lok3sgkj3r557nrzj5tfy



Referências

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* JOHN KENNEDY FERREIRA é Doutor em História Econômica- USP; Pesquisador do NEILS/PUC/SP.


sábado, 30 de setembro de 2017

Sua agonia, seu triunfo


Execução dos anarquistas Sacco e Vanzetti, em 1927, criou símbolos de solidariedade internacional pela liberdade



Por Roberto Amado 


Trabalhadores forma às ruas pela liberdade
do sapateiro e do peixeiro (Foto Wikipédia) 
Em silêncio eles entraram, um após o outro, na sala da morte. Caminhavam lentamente. “Viva a anarquia!”, pronunciou Ferdinando Nicola Sacco antes de ser eletrocutado. Bartolomeo Vanzetti sentou-se mudo na cadeira e apenas conseguiu gaguejar um “adeus, mamãe”. Era 23 de agosto de 1927 e o mundo assistia atônito a um dos maiores erros judiciais da história.

Na cidade de Boston, nos Estados Unidos, onde ocorreu a execução, mais de 20 mil pessoas estavam concentradas numa manifestação contra a sentença. Em Paris, 12 mil entraram em choque com a polícia, assim como em Buenos Aires, Londres e Berlim. Em Montevidéu, uma manifestação ameaçou de morte o cônsul norte-americano. A Folha da Manhã noticiava uma greve geral de operários em São Paulo em solidariedade aos dois italianos anarquistas. “Foi um dos mais importantes movimentos internacionais da história”, diz Sean Purdy, professor de História dos Estados Unidos na Universidade de São Paulo (USP).

Tudo começou sete anos antes, quando, após um duplo assassinato numa pequena cidade do Estado de Massachusetts, Sacco e Vanzetti foram presos como suspeitos. Ambos foram vítimas de um julgamento tendencioso, no qual prevaleceu sobre os fatos uma febre anticomunista que contaminou os Estados Unidos após a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, em 1917. 

“O processo judicial foi uma farsa, um ato político-ideológico”, afirma Sean Purdy. Tanto Nicola Sacco como Bartolomeo Vanzetti eram ligados ao movimento anarquista norte-americano, além de serem imigrantes italianos, num momento em que os Estados Unidos praticavam uma forte política contra a imigração. O historiador lembra que, em 1921, foi criada uma lei emergencial que reduzia o limite de imigração de 800 mil para 300 mil. 

“Na ocasião, o mundo inteiro estava sob o grande impacto da Revolução Russa e os partidos de esquerda nos Estados Unidos eram constituídos de imigrantes europeus – alemães, poloneses, italianos. Havia um consistente movimento de esquerda norte-americano naquela época: o Partido Socialista chegou a receber 3 milhões de votos nas eleições de 1911”, conta o historiador. O país estava mergulhado no medo contra as forças comunistas, anarquistas e socialistas – o red scare (temor vermelho).

Mártires

Sacco, um respeitado sapateiro, e Vanzetti, um modesto peixeiro, foram levados a um julgamento marcado por uma sucessão de arbitrariedades e erros. Para começar, nenhum dos dois conseguia se expressar fluentemente em inglês. Também pesou o fato de ambos terem se refugiado no México, anos antes, para não servir o Exército durante a guerra. Há suspeitas de que houve pressões sobre as testemunhas, ainda que não pudessem fazer plena identificação dos acusados. E o comportamento do juiz Webster Thayer foi considerado pela imprensa americana da época como “surpreendentemente imparcial”.

Os sete anos em que os amigos passaram na prisão à espera da execução da sentença foram marcados por uma sucessão de idas e vindas judiciais, resultado das pressões da opinião pública internacional contra a decisão. “Em várias cidades do mundo, houve mobilização de operários e defensores dos direitos humanos. E não foram movimentos ligados apenas ao pensamento de esquerda”, diz Purdy. No Brasil, o Congresso chegou a aprovar apoio formal aos condenados, assim como a prefeitura da capital federal, o Rio de Janeiro, para a satisfação do movimento operário. De nada adiantou. Nem mesmo a tentativa de suicídio de Sacco, que o levou ao hospital em 1923, e a greve de fome que empreendeu nos seus últimos momentos de vida.

Poucas horas antes da execução, o sapateiro deu uma declaração sobre o longo processo de erros e desacertos a que foi submetido: “Estão determinados a nos matar, sem se importar com as evidências, com a lei, com a decência. Se nos concederem um adiamento esta noite, será para nos matar na semana que vem. Vamos terminar logo com isso. Esperei sete anos para morrer sabendo o tempo todo que eles queriam nos matar”. Vanzetti citou Santo Agostinho: “O sangue dos mártires é a semente da liberdade”.

Após a morte dos dois imigrantes, transformados em símbolos da esquerda internacional, as repercussões continuaram. O caso, ao longo do tempo, deu margem a uma série de manifestações nas artes, na literatura e no Direito. Desde abordagens técnicas sobre o processo até expressões mais romanceadas. Em 1971, o diretor Giuliano Montaldo levou a história para o cinema. A exibição do filme Sacco e Vanzetti foi proibida no Brasil pela ditadura e a canção Here’s to You, interpretada por Joan Baez e incluída na trilha sonora composta por Ennio Morricone, tornou-se hino contra a repressão e a censura (Here’s to you, Nicola and Bart/ Rest forever here in our hearts/ The last and final moments is yours/ That agony is your triumph).

Últimas palavras

"Caros amigos e camaradas do Comitê de Defesa de Sacco-Vanzetti  À meia-noite de amanhã nós seremos executados, a menos que haja novo adiamento da Corte Suprema dos Estados Unidos ou do governador Alvan T. Fuller. Nós não temos mais esperança (...) Assim, decidimos escrever essa carta para expressar nossa gratidão e admiração por tudo o que vocês fizeram em nossa defesa durante estes sete anos, quatro meses e onze dias de luta (...) Apenas dois de nós vão morrer. Nosso ideal viverá em milhões de pessoas. Nós vencemos. Conservem nosso sofrimento, nossas dores, nossos erros, nossas derrotas e nossa paixão como um tesouro para batalhas futuras e para a liberdade final. Saudações aos nossos amigos e camaradas da Terra. Vida longa à Liberdade!"


Bartolomeo Vanzetti e Nicola Sacco


sábado, 23 de setembro de 2017

Alexandra Kollontai, uma mulher do século 25


Alexandra Kollontai


Por Wevergton Brito


No dia 19 de março (pelo calendário juliano vigente na Rússia de então, hoje 31 de março) comemorou-se os 145 anos de nascimento de Alexandra Kollontai, feminista, militante bolchevique e dirigente soviética.

Afirmar que Alexandra Kollontai era uma mulher à frente do seu tempo não é incorreto, mas é uma definição até acanhada diante do que representaram suas ideias acerca de temas como libertação feminina, sexualidade, casamento, família...

Em 1907 Frida Kahlo nascia e Simone de Beauvoir nasceu um ano depois. Pois em 1907, quando estes dois ícones do feminismo ainda nem engatinhavam, Kollontai já denunciava o casamento e a família burguesas como grilhões que oprimiam a mulher: “Para se tornar verdadeiramente livre, a mulher deve desatar as correntes que a aprisionam sobre a forma atual, antiquada e opressiva da família (...) as formas atuais, estabelecidas pela lei e o costume, da estrutura familiar faz com que a mulher esteja oprimida não só como pessoa, mas também como uma esposa e mãe (...) E onde acaba a escravatura familiar oficial, legalizada, começa a ‘opinião pública’ para exercer os seus direitos sobre as mulheres” (1).

Kollontai denuncia de forma implacável a “hipócrita dupla moral”, que julga de forma severa a conduta de uma mulher que vive livremente sua sexualidade enquanto ao homem tudo é permitido: “A mulher está privada do direito de um cidadão de levantar a voz para defender seus interesses pisoteados, e (a sociedade) tem a grande bondade de oferecer esta alternativa: ou o jugo conjugal ou a prostituição, que abertamente é desprezada e condenada, mas secretamente, apoiada e sustentada” (2).

Para Alexandra Kollontai, era tarefa da classe trabalhadora lutar contra a opressão sexual vivida pelas mulheres: “Entre as múltiplas ideias fundamentais que a classe trabalhadora deve levar em conta em sua luta para a conquista da sociedade futura, deve estar, necessariamente, o estabelecimento de relações sexuais mais sadias e que, portanto, tornem a humanidade mais feliz. É imperdoável nossa atitude de indiferença diante de uma das tarefas essenciais da classe trabalhadora. É inexplicável e injustificável que o vital problema sexual seja relegado, hipocritamente, ao arquivo das questões puramente privadas” (3).

Era preciso, segundo ela, uma nova relação entre os sexos, baseada “em dois princípios novos: liberdade absoluta, por um lado, e igualdade e verdadeira solidariedade entre companheiros, por outro” (4).

Para ela, a nova sociedade socialista teria, inevitavelmente que ter uma nova moral: “Toda classe ascendente, nascida como consequência de uma cultura material distinta daquela que a antecedeu no grau anterior da evolução econômica, enriquece toda a humanidade com uma nova ideologia que lhe é característica” (5).

“Mulher comunista, sexualmente emancipada”

Em 1926, Kollontai, então com 54 anos, escreveu uma pequena autobiografia, intitulada “Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emancipada”. Nela, congratula-se por ter sido “bem-sucedida em estruturar minha vida de acordo com meus próprios padrões e não faço mais segredo das minhas experiências amorosas do que um homem faz das suas. Mas, acima de qualquer outra coisa, eu nunca deixei meus sentimentos, a alegria ou a dor do amor, tomarem o primeiro lugar em minha vida, ao passo que criatividade, ação e luta sempre ocuparam o primeiro plano”.

De fato, o feminismo de Kollontai era politicamente engajado e eminentemente classista, embora ela se recusasse a deixar que a questão da opressão feminina fosse adiada até a conquista do socialismo, “as mulheres só podem se tornar verdadeiramente livres e iguais apenas em um mundo organizado por novas linhas sociais e de produção. No entanto, isso não significa que a melhora parcial na vida das mulheres no âmbito do atual sistema não é possível” (6).

Alexandra nasceu em uma família abastada, com o nome de Alexandra Mikhaylovna Domontovich. O pai, ucraniano, era general do exército russo e a mãe vinha da aristocracia rural finlandesa. Aos 20 anos casa-se com Vladimir Mikhaylovich Kollontai, um jovem oficial do exército, com quem teve um filho, Misha. Vem deste casamento o sobrenome com o qual ficou famosa e que conservou até o fim da vida.

Considerada por muitos contemporâneos a mulher “mais bela da Rússia” (7), a “bolchevique enamorada” (título de um dos seus romances) teve contato com a literatura revolucionária graças a uma amiga, Lelia Stassova. Segundo suas próprias palavras “Cada vez mais minhas simpatias, meus interesses se voltaram para a classe trabalhadora revolucionária da Rússia. Eu lia vorazmente. Zelosamente estudava todas as questões sociais, frequentava palestras, e trabalhava em sociedades semilegais para o esclarecimento do povo” (8).

Em 1898 abandona o marido e o filho e inicia “uma jornada a Zurique com o objetivo de estudar economia política com o professor Heinrich Herkne” (9). Segundo Alexandra “Com isso teve início minha vida consciente em defesa dos objetivos revolucionários da classe trabalhadora” (10). Em 1899 filia-se ao Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), organização que reunia os marxistas revolucionários da Rússia.

Militante revolucionária

Participa da revolução russa de 1905, tem intensa atividade, mas se queixa de “quão pouco nosso partido se preocupava com a sorte das mulheres da classe trabalhadora e quão pequeno era o seu interesse na libertação feminina” (11).

Pouco a pouco vai vencendo resistências e atraindo aliadas: “Não obstante, nos anos de 1906-1908 eu conquistei um pequeno grupo de mulheres camaradas do partido para os meus planos” (12).

Os artigos de Alexandra sobre os direitos da mulher, o casamento e a família a tornam cada vez mais popular, inclusive internacionalmente, e além do mais ela revela grande talento como oradora.

A jovem revolucionária vivia plenamente sua sexualidade, enfrentando toda sorte de tabus e preconceitos, que partia inclusive de camaradas revolucionários, “Eu agora posso confessar abertamente que no partido russo eu era, de forma deliberada, mantida relativamente à distância do centro dirigente” (13).

Com o POSDR dividido entre bolcheviques e mencheviques, Alexandra junta-se aos mencheviques, tendo como um dos motivos principais a postura quanto à Duma de Estado (parlamento sem poderes efetivos criado pelo Czar Nicolau II em 1906). Os bolcheviques pregavam o boicote ativo à Duma e os mencheviques defendiam a participação (14): “eu compartilhava o ponto de vista de que mesmo um pseudoparlamento deveria ser utilizado como uma tribuna para o nosso partido e que as eleições para a Duma deveriam ser utilizadas como um ponto de congregação para a classe trabalhadora” (15).

Mas a luta principal de Kollontai dentro do Partido era para conjugar a emancipação das mulheres com a revolução proletária: “tentei influenciar camaradas do partido e as próprias mulheres trabalhadoras. Naturalmente, sempre fiz isso de um modo que exigia do partido que ele abraçasse a causa da libertação feminina. Isso nem sempre foi uma tarefa fácil. Muita resistência passiva, pouca compreensão, e ainda menor interesse para esse objetivo se apresentavam, reiteradamente, como obstáculos no caminho. Foi somente em 1914, um pouco antes do início da I Guerra Mundial, que finalmente ambas as frações – os mencheviques e os bolcheviques – passaram a levar a questão de uma maneira séria e prática, um fato que teve para mim um efeito semelhante a uma condecoração pessoal” (16).

Obrigada a se exilar pela perseguição da Okrana (a polícia secreta czarista) Kollontai, de 1908 a 1917, peregrina entre Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Noruega e Suíça. Para alguns destes países ela levou o filho, Misha. Sobre o filho, ela diz, em sua autobiografia, que “embora eu o tenha pessoalmente educado com grande cuidado, a maternidade nunca foi o centro da minha existência”.

Na Alemanha fica amiga de Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo, Karl Kautsky e também da veterana revolucionária e feminista Clara Zetkin, a quem ela atribui “uma grande influência na minha atividade de definir os princípios do movimento das mulheres trabalhadoras na Rússia” (17).

Na França, torna-se amante do operário russo exilado Chliapnikov. Ela tinha então 39 anos e ele 26. Chliapnikov era um quadro profissional dos bolcheviques, ligado diretamente a Lênin, que nesta época também estava em Paris. Lênin, informado por Chliapnikov sobre a relação – o operário diz estar “apaixonadíssimo” por Kollontai (18) – sugere que Chliapnikov atraia a valiosa militante para os bolcheviques.

Não tarda e Kollontai escreve uma carta para Zoia Chadurskaia, a sua melhor amiga, onde diz: “Ele (Chliapnikov) abriu-me os olhos para muitas coisas; transformou-me” (19).

Alexandra Kollontai filia-se oficialmente aos bolcheviques em junho de 1915 e passa a manter uma correspondência frequente com Lênin.

Embora não seja artificial supor a influência de Chliapnikov sobre a decisão de Kollontai de juntar-se aos bolcheviques, em sua “autobiografia” ela faz questão de assinalar que “nenhum dos homens que estiveram próximos de mim chegou a ter alguma influência no sentido de dar direção às minhas tendências, lutas ou visão de mundo. Ao contrário, na maior parte do tempo eu era o espírito que liderava”.

No fogo da revolução de outubro

Em fevereiro de 1917, quando cai o Czar, Alexandra é uma das primeiras bolcheviques a retornar à Rússia. Vale a pena ler seu relato sobre a sua chegada:

“Um trenó levou-me através do rio que delimita a fronteira. Em solo russo postava-se um soldado. Uma fita vermelha brilhante vibrou em seu peito. ‘Seus papéis de identidade, por favor, cidadã’. ‘Eu não tenho nenhum. Eu sou uma refugiada política’. ‘Seu nome?’ Eu identifiquei-me. Um jovem oficial foi chamado. Sim, meu nome estava na lista dos refugiados políticos que deviam ser admitidos livremente no país por ordem do Soviet dos Trabalhadores e dos Soldados. O jovem oficial ajudou-me a descer do trenó e beijou minha mão, quase como uma reverência. Eu estava pisando o solo republicano da Rússia liberta! Essa foi uma das horas mais felizes de toda a minha vida (20).”

Por ironia, este mesmo educado jovem oficial prende Kollontai, como uma “perigosa bolchevique”, apenas quatro meses depois, por ordem do governo de Kerenski.

Antes desta prisão, Alexandra Kollontai participou da comitiva que recebeu Lênin na Estação Finlândia, quando chegou a vez de o líder bolchevique retornar do exílio. Aderiu de corpo e alma às “Teses de Abril” (obra de Lênin que prepara o partido para a insurreição).

Cada vez melhor como oradora, combatente fervorosa do governo provisório, enfrentou cerrada campanha dos jornais burgueses que redobravam seu ódio contra a “louca bolchevique”, indubitavelmente por conta também do preconceito machista: “Com frequência, tinha que pular dos bondes antes que as pessoas me reconhecessem, já que tinha me transformado no assunto do momento e frequentemente testemunhava pessoalmente os maiores abusos e mentiras dirigidos contra mim (...) Naquele tempo, os jornais hostis a mim já escreviam sobre ‘os vestidos de festa de Kollontai’ o que, particularmente nesses tempos, era risível, porque meu baú tinha sido perdido a caminho a Rússia, assim eu vestia sempre o mesmo e único vestido. Havia até mesmo uma pequena balada nas ruas que comentava sobre Lênin e mim em verso (21)“.

Um bom exemplo da capacidade oratória de Kollontai foi o episódio de seu discurso aos marinheiros da armada fundeada em Helsinque e Kronstadt, no dia 28 de abril de 1917. Os bolcheviques já haviam tentado por diversas vezes conseguir a adesão da esquadra do Báltico para os planos revolucionários, mas sem sucesso. Lênin então envia Kollontai. Em um discurso brilhante, a dirigente bolchevique conquista os marinheiros que mais tarde desempenham na revolução de outubro um papel fundamental (22).

Presa por ordem do governo provisório de Kerenski, Kollontai foi solta junto com outros bolcheviques por ordem do Soviete de Soldados e Operários e colocada em prisão domiciliar.

Fica completamente livre um mês antes da revolução de outubro: “Naquele período, eu era membro do organismo mais elevado do partido, o Comitê Central, e votei a favor da política de levante armado (...) Vieram então os grandes dias da Revolução de Outubro. O Instituto Smolny tornou-se histórico. As noites sem dormir, as sessões permanentes” (23).

O famoso Instituto Smolny, citado por Kollontai, era o local onde se reunia a Comissão Militar eleita pelo CC bolchevique e responsável por preparar a insurreição.

Comissária do Povo

Com a revolução de outubro de 1917 vitoriosa, Kollontai é eleita para compor o escalão superior do primeiro governo soviético, ocupando a pasta no Soviete Supremo de Comissária do Povo para o Bem-Estar Social, cargo equivalente ao de Ministro. Era a primeira vez na história que uma mulher era escolhida para um cargo governamental deste nível. Para se ter uma ideia do que isso significa, na França a mulher só conquista o direito de voto em 1945.

O trabalho de Kollontai é colossal, enfrentando a sabotagem da velha burocracia, que ainda estava presente em boa parte do aparelho estatal do recém-nascido Estado Soviético, surpreende a ousadia do que foi feito.

Todas as leis que discriminavam a mulher foram abolidas, o divórcio é instituído. O aborto, embora não fosse incentivado (quem cobrasse para fazer aborto era punido), passou a ser livremente feito em hospitais e maternidades públicas. Mas isso era apenas parte do trabalho. Alexandra cita alguns dos principais desafios e iniciativas, muitos deles ainda plenamente atuais e urgentes em diversos países:

“reorganizar os antigos orfanatos (...) estabelecer as primeiras hospedarias para os necessitados e os moradores de rua, reunir um comitê, composto somente de médicos, que seria encarregado de elaborar o sistema público gratuito de saúde para o país inteiro. Em minha opinião, a mais importante realização do Comissariado do Povo, entretanto, foi a fundação legal de um Escritório Central ao Bem-Estar Materno e Infantil. O esboço do projeto de lei relacionado a este escritório central foi assinado por mim em janeiro de 1918. Um segundo decreto seguiu-se transformando todas as maternidades em Casas de Atendimento à Maternidade e à Infância gratuitas, buscando, desse modo, estabelecer as bases para um sistema governamental abrangente de cuidado pré-natal. (24)”

O objetivo, segundo Kollontai, era efetivar “direitos iguais para mulheres como unidade de trabalho na economia nacional e como cidadã na esfera política e, é claro, com uma ressalva especial: a maternidade devia ser considerada uma função social e, conseqüentemente, ser protegida e garantida pelo Estado. Sob a orientação do Dr. Lebedevo, os institutos estatais para o cuidado pré-natal também floresceram nessa época. Ao mesmo tempo, escritórios centrais foram estabelecidos no país inteiro para tratar das questões e das tarefas relacionadas com a libertação das mulheres e para inseri-las no trabalho dos sovietes” (25).

Tudo isso, por óbvio, não foi feito sem despertar forte reação da direita. Alexandra foi excomungada em um ato público convocado pela igreja ortodoxa e a imprensa reacionária redobrou os ataques.

Pacientemente, a dirigente buscava esclarecer o povo: “A república operária não toma as crianças dos braços de suas mães à força, como versam os relatos fictícios dos países burgueses sobre os horrores do ‘regime bolchevique’; pelo contrário, a república operária procura criar instituições que permitam que todas as mulheres, e não apenas as mulheres ricas, tenham a oportunidade de criar seus filhos em um ambiente saudável e feliz. Em vez de levar mães angustiadas a largarem seus filhos sob os cuidados de uma babá contratada, a Rússia soviética deseja que a operária e a camponesa possam trabalhar tranquilamente, sabendo que seu filho estará seguro nas mãos hábeis de uma creche, de um jardim de infância ou de um lar de crianças. (26)”

Combatia, com argumentos didáticos, o preconceito contra as mudanças. A citação é longa, mas vale conhecer como a dirigente soviética buscava escrever visando atingir os operários e camponeses:

“Não há nenhuma razão para nos enganarmos: a família normal dos tempos passados na qual o homem era tudo e a mulher era nada – posto que não tinha vontade própria, nem tempo do qual dispor livremente -, este tipo de família sofre modificações dia a dia, e atualmente é quase uma coisa do passado, o qual não deve nos assustar. Seja por erro ou ignorância, estamos dispostos a crer que tudo o que nos rodeia deve permanecer imutável, enquanto tudo o mais muda. ‘Sempre foi assim e sempre será’. Esta afirmação é um erro profundo. A moral a serviço do homem atual o autoriza exigir das jovens a virgindade até seu casamento legítimo. Porém, não obstante, há tribos em que ocorre o contrário: a mulher tem orgulho de ter tido muitos amantes e enfeita braços e pernas com braceletes que indicam o número... Diversos costumes, que a nós nos surpreendem, hábitos que podemos, inclusive, qualificar de imorais, outros povos o praticam, com a sanção divina, enquanto que, por sua parte, qualificam de ‘pecaminosos’ muitos de nossos costumes e leis. Portanto, não há nenhuma razão para que nos aterrorizemos diante do fato de que a família sofra uma mudança, porque gradualmente se descartem vestígios do passado vividos até agora, nem porque se implantam novas relações entre o homem e a mulher. Sobre as ruínas da velha vida familiar, veremos ressurgir uma nova forma de família que suporá relações completamente diferentes entre o homem e a mulher, baseadas em uma união de afetos e camaradagem, em uma união de pessoas iguais na sociedade comunista, as duas livres, as duas independentes, as duas operárias. Não mais ‘servidão’ doméstica para a mulher! Não mais desigualdade no seio da família! O matrimônio ficará purificado de todos seus elementos materiais, de todos os cálculos de dinheiros que constituem a repugnante mancha da vida familiar de nosso tempo. O matrimônio se transformará de agora em diante na união sublime de duas almas que se amam, que se professem fé mútua” (27).

Kollontai não se deixava intimidar pelos ataques, mas tampouco se inebriava pelas conquistas iniciais. Em discurso às operárias, ela fala do avanço e dos limites do que se tinha alcançado (ouça abaixo o áudio deste discurso completo e com legendas em português): “A Revolução de Outubro emancipou a mulher: hoje as camponesas têm os mesmos direitos que os camponeses, e as operárias, os mesmos que os operários. Em todo lugar a mulher pode votar, ser membro dos sovietes ou comissária, e até comissária do povo. A lei equipara a mulher em direitos, mas a realidade ainda não a libertou: as operárias e camponesas continuam subjugadas ao trabalho doméstico, como escravas dentro da própria família. Numa sociedade comunista mulher e homem devem ter direitos iguais! Sem essa igualdade, não há comunismo” (28).

A pobreza de uma nação devastada pela guerra e ainda em guerra civil também é um obstáculo:

“Nós não precisamos nos valer de métodos de agitação para convencer as mulheres a utilizarem os lares de gestantes. O nosso problema é a limitação dos recursos materiais da Rússia; nós somos pobres, o que torna difícil ampliar a nossa rede, a fim de cobrir toda a área da Rússia operária com tais ‘postos de atendimento’ para operárias e camponesas (...) Ao longo de 1921, foram inauguradas 689 creches desse tipo, atendendo a 32.180 crianças. Para as mães que trabalham em fábricas e escritórios, foram abertas creches nas fábricas e nas instituições, além daquelas disponíveis a nível distrital e municipal. Não creio ser necessário enfatizar a enorme importância dessas creches para as mães. O problema é que nós não temos creches suficientes e não podemos atender a um décimo da demanda” (29).

Contudo, apesar de todos estes limites o trabalho alcançava notável avanço, o que Kollontai atribuía ao caráter da Revolução Soviética:

“É óbvio que somente um país do futuro, como a União Soviética, pode ousar confrontar a mulher sem nenhum preconceito, para considerá-la somente do ponto de vista de suas habilidades e talentos e, consequentemente, incumbi-la de tarefas de responsabilidade. Somente as frescas tempestades revolucionárias foram fortes o bastante para varrer velhos preconceitos contra a mulher” (30).

Em fins de 1918 Kollontai renuncia a seu cargo de comissária do povo por discordar das negociações que redundaram no tratado de paz de Brest-Litovski, entre o governo bolchevique e os países do bloco alemão (Alemanha, Áustria-Hungria, Bulgária e Turquia). Ela, que havia optado pelos mencheviques em 1906, em um típico desvio de direita, desta vez incorre em um desvio de esquerda e adere em 1919 à Oposição Operária, liderada por Chliapnikov (aquele mesmo operário bolchevique que ela conheceu na França e do qual foi amante durante certo período), Medvedlev, entre outros.

Na verdade, Kollontai tinha arestas com diversos dirigentes do Partido, que secretamente censuravam seu estilo de vida. Trotski e Zinoviev a detestavam. Stálin, por outro lado, a admirava, embora considerasse seu feminismo “exacerbado” (31).

Mais tarde Kollontai, assim como boa parte da “Oposição Operária”, faz autocrítica de sua posição anterior e se realinha com o Comitê Central do Partido.

Importante carreira diplomática

Em 1922, Alexandra Kollontai é nomeada para uma missão diplomática na Noruega. Logo assume o posto de embaixadora: “Em agosto de 1924, fui designada ‘ministra plenipotenciária’ e entreguei minhas credenciais ao rei da Noruega com o cerimonial usual” (32). Mais uma vez Kollontai enfrentava o arraigado preconceito: “Isto, é claro, deu à imprensa conservadora de todos os países uma outra ocasião para vomitar suas mentiras sobre mim. Afinal de contas, nunca antes em toda a História uma mulher tinha sido aceita como embaixadora com a pompa e cerimônia habituais (...) A imprensa conservadora, especialmente a imprensa ‘branca’ russa sentiu-se ultrajada e tentou fazer de mim um verdadeiro monstro de imoralidade e um espectro sangrento. Particularmente agora, foi escrita uma profusão de artigos sobre minhas ‘ideias horríveis’ em relação ao casamento e ao amor” (33).

Kollontai dá grande importância ao seu posto e ao que ele representa para a luta das mulheres:

“A diplomacia é uma casta que, mais do que qualquer outra, mantém seus antigos costumes, tradições e, acima de tudo, seus rígidos rituais cerimoniosos. O fato de que uma mulher, uma mulher ‘livre’, uma mulher solteira, tenha sido reconhecida neste posto sem oposição mostra que chegou o tempo em que todos os seres humanos serão igualmente avaliados de acordo com sua atividade e sua mais alta dignidade humana. Quando eu fui nomeada para o trabalho da diplomacia russa em Oslo, percebi que dessa forma tinha conquistado uma vitória que não era somente minha, mas das mulheres em geral, e de fato, uma vitória sobre seu pior inimigo, qual seja, sobre a moral convencional e sobre conceitos conservadores acerca do casamento (...) eu sempre penso comigo mesma que em última análise a principal vitória no que diz respeito à libertação feminina não reside apenas nesse fato. Mas antes, o que tem todo um significado especial é que uma mulher, como eu, que acertou as contas com a dupla moral e que nunca ocultou isso, tenha sido aceita em uma casta que ainda hoje se apega firmemente à tradição e à pseudomoral. (34)”

O desempenho de Kollontai como embaixadora teve total êxito. O Governo norueguês reconheceu oficialmente a URSS e Alexandra conseguiu ainda normalizar as relações comerciais entre os dois países no final de 1925.

Depois Kollontai serviu como embaixadora no México, de novo na Noruega e posteriormente, durante a guerra, na Suécia, onde levou adiante com a competência de sempre a delicada tarefa de ser a representante de um país em guerra em uma nação neutra.

Em 1945, com 73 anos, se aposenta e retorna a Rússia. Recebeu de Stálin a mais alta comenda do Estado Soviético, a Ordem de Lênin.

Morreu aos 79 anos, em 1952.

Quando escreveu sua autobiografia, terminou dizendo: “está perfeitamente claro para mim que a libertação completa da mulher trabalhadora e a criação das bases de uma nova moral sexual manter-se-ão para sempre como o alvo mais elevado de minha atividade, e de minha vida” (35).

Ela acalentava a convicção de que “inevitavelmente chegará o tempo em que uma mulher será julgada pelos mesmos padrões morais utilizados para os homens” (36).

Sem dúvida muito se avançou, graças as ideias e as lutas de Alexandra Kollontai, das feministas que vieram antes dela e das que a sucederam na batalha.

Mas também é forçoso reconhecer que ao estudar a produção teórica e a trajetória de Kollontai temos a sensação que mesmo hoje em dia ela seria incompreendida e atacada por defender – de forma consequente – valores de emancipação feminina e igualdade social.

É incrível constatar que em 2017, já findando a primeira década do século XXI, tenhamos ainda pensamentos como o do presidente brasileiro Michel Temer, que em recente discurso na cerimônia do 8 de março disse que a mulher tem grande importância como fiscal de preços no supermercado.

Felizmente existirão sempre novas Alexandras Kollontais, para enfrentar e derrotar os czares e os guardas brancos do nosso tempo, poderosos sem dúvida, mas cada vez mais arrogantes, com a arrogância típica de quem pressente que seu tempo histórico acabou e que o século 25, quem sabe, está logo ali.

*Wevergton Brito Lima é Jornalista, membro da Comissão de Política e Relações Internacionais do PCdoB

Notas:

1, 2, 6 – Os Fundamentos Sociais da Questão Feminina (Extratos,) Alexandra Kollontai, 1907

3, 4, 5 – As Relações entre os Sexos e a Luta de Classes, Alexandra Kollontai, 1911

7, 18, 19, 31 – Alexandra Kollontai, uma mulher à frente do seu tempo, Miguel Urbano Rodrigues, 2016

8, 9, 10, 11, 12, 13, 15, 16, 17, 20, 21, 22, 24, 25, 30, 32, 33, 34, 35, 36 – Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emancipada, Alexandra Kollontai, 1926

14 – A criação da Duma, com funções apenas de “aconselhamento” ao Czar, foi uma tentativa da reação de frear o ascenso revolucionário das massas que explodiu em 1905 em violentos protestos contra o czarismo. Lênin e os bolcheviques interpretaram corretamente os fatos e adotaram uma tática consequente de boicote ativo à Duma, que trouxe grande prestígio ao Partido. Em 1910, quando a maré revolucionária havia refluído, Lênin, diante do novo cenário, propôs a revisão do “boicote a Duna” e os bolcheviques passaram a participar das eleições.

26, 29 – O Trabalho Feminino no Desenvolvimento da Economia, Alexandra Kollontai, 1921

27 – O Comunismo e a Família, Alexandra Kollontai, 1920

28 – Às Trabalhadoras, Alexandra Kollontai, 1918