sábado, 28 de setembro de 2019

Socialismo e religião



                                                                                   So­ci­a­lista, ca­tó­lico, na­ci­o­na­lista: 
                                                          textos de James Con­nolly chegam ao Brasil pela pri­meira vez

Retrato de Mike O'Dea

Em 24 de abril de 1916, durante a Se­mana Santa, cen­tenas de ir­lan­deses se le­van­taram em armas, ocu­param pontos-chaves da ci­dade de Du­blin e pro­cla­maram a in­de­pen­dência da Ir­landa frente ao do­mínio bri­tâ­nico. A "Re­volta de Páscoa" ou "Le­vante de Páscoa", como o epi­sódio ficou co­nhe­cido, acabou der­ro­tada seis dias de­pois. Mais de 60 re­beldes foram mortos em com­bate, e 16 foram exe­cu­tados.

Dentre eles es­tava James Con­nolly, um dos lí­deres do Co­mitê Mi­litar que, se­ve­ra­mente fe­rido pelos com­bates, ficou im­pos­si­bi­li­tado de ficar de pé frente ao pe­lotão de fu­zi­la­mento e foi le­vado para a morte em uma maca e su­pli­ciado amar­rado a uma ca­deira.

"Apesar James Con­nolly ser um dos mais im­por­tantes lí­deres so­ci­a­listas do sé­culo 20 - quando seu filho vi­sitou Lênin na Rússia, com quem seu pai trocou inú­meras cartas, em 1922, al­guns jor­nais so­vié­ticos o des­cre­viam como o 'Lênin ir­landês' - ele é um ilustre des­co­nhe­cido no Brasil. Suas obras nunca foram pu­bli­cadas em por­tu­guês, e mesmo na in­ternet é raro en­con­trar seus ar­tigos tra­du­zidos. É por isso que o pu­bli­camos", diz Pedro Marin, editor da Bai­o­neta, que acaba de lançar uma co­le­tânea de ar­tigos do líder ir­landês, So­ci­a­lismo e Re­li­gião.

"Um dos as­pectos in­te­res­santes da obra é que ela é bas­tante an­te­rior à Con­fe­rência de Me­dellín e à ex­plosão da Te­o­logia da Li­ber­tação na Amé­rica La­tina. Como na Ir­landa a re­li­gião se de­sen­volveu como um vetor so­cial e po­lí­tico na se­pa­ração das iden­ti­dades dos co­lo­ni­zados ir­lan­deses e dos ocu­pantes bri­tâ­nicos, um de­bate po­lí­tico forte sempre foi feito ao redor dela", com­pleta.

O livro reúne sete textos de Con­nolly - dentre eles "Tra­balho, Na­ci­o­na­li­dade e Re­li­gião", pu­bli­cado como livro em 1910, e "As Cri­anças, o Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores e Trans­portes Ir­lan­deses e o Ar­ce­bispo", es­crito du­rante o Lo­caute de Du­blin, em 1913 - em que o fun­dador do Par­tido So­ci­a­lista Re­pu­bli­cano Ir­landês e do Exér­cito Ci­dadão Ir­landês, ele mesmo um ca­tó­lico, de­bate a re­lação entre re­li­gião, so­ci­a­lismo e a for­mação po­lí­tica da Ir­landa.

Por vezes, os em­bates pú­blicos são feitos até com clé­rigos: "Essa ati­vi­dade po­lí­tica no pas­sado, como a opo­sição cle­rical ao so­ci­a­lismo no pre­sente, era e é uma ten­ta­tiva de servir a Deus e a Mammon - uma ten­ta­tiva de com­binar os ser­viços d’Ele que em Sua hu­mil­dade montou um ju­mento, com o ser­viço da­queles que mon­taram ca­valos com fer­ra­duras para passar por cima dos co­ra­ções e almas e es­pe­ranças da hu­ma­ni­dade so­fre­dora", res­ponde Con­nolly ao padre Ro­bert Kane em um dos ar­tigos.



O livro foi lan­çado du­rante o V Salão do Livro Po­lí­tico, em São Paulo, e já está à venda no site da edi­tora.

Con­fira o pró­logo, as­si­nado por Pedro Marin:

James Con­nolly nasceu em 5 junho de 1868. Sua vida deu li­ção de sua gran­deza: co­me­çou a tra­ba­lhar aos onze anos, se alistou no Exé­rcito Bri­tânico aos qua­torze, fal­si­fi­cando seus do­cu­mentos, e pelos seus vinte se tornou so­ci­a­lista. Em maio de 1896, fundou o Par­tido So­ci­a­lista Re­pu­bli­cano Ir­lan­dês (IRSP). Par­ti­cipou ati­va­mente do “Lo­caute de Du­blin”, em 1913, que durou seis meses e en­volveu 20 mil tra­ba­lha­dores, e neste mesmo ano, em res­posta ao lo­caute, fundou o Exé­rcito Ci­da­dão Ir­lan­dês (ICA), um grupo ar­mado e bem trei­nado com o fim de de­fender os tra­ba­lha­dores da bru­ta­li­dade da Po­li­cia Me­tro­po­li­tana de Du­blin.

Em 24 de abril de 1916, Con­nolly co­mandou a Bri­gada de Du­blin du­rante a Re­volta de Pá­scoa, que tomou a Ir­landa por seis dias de com­bate por sua in­de­pen­dê­ncia, no mais im­por­tante mo­vi­mento ir­lan­dês desde a re­be­lião de 1798. Foi em fun­ção dessa Re­volta que, amar­rado a uma ca­deira, James Con­nolly foi fu­zi­lado em 12 de maio de 1916, aos 47 anos de idade, sem poder ver triunfar a pri­meira re­vo­lu­ção so­ci­a­lista da his­to­ria, que ex­plo­diria na Rú­ssia no ano se­guinte.

Apesar de uma vida tão de­vota à causa da in­de­pen­dê­ncia de seu país, e a des­peito de ter sido um dos mais im­por­tantes li­d­eres so­ci­a­listas do se­culo 20, James Con­nolly é um des­co­nhe­cido no Brasil. Seus es­critos nunca foram pu­bli­cados, e mesmo na in­ternet tra­du­ções são es­cassas. Isso é o que nos ins­pira a pu­blicá-lo.

Mas o que mo­tiva o tema dessa pri­meira co­le­ta­nea de James Con­nolly, sobre so­ci­a­lismo e re­li­gião, é um fato tri­vial: além de todas as con­di­ções ex­postas acima, Con­nolly era tam­bém re­li­gioso. Mais es­pe­ci­fi­ca­mente, ca­tólico. Du­rante os ritos antes de sua morte, re­a­li­zados pelo frade ca­pu­chinho Aloy­sius Tra­vers, Con­nolly de­clarou, frente a um pe­dido de que re­zasse pelos seus ca­pa­tazes: “eu re­zarei em nome de todo homem que faça suas obri­ga­ções de acordo com suas luzes”.

Assim, a fim de im­pedir ações in­justas, re­a­li­zadas por falta de cla­reza, pre­ten­demos com esse livro, antes de tudo, jogar novas luzes sobre o so­ci­a­lismo para aqueles que têm fé. Muitas das acu­sa­ções pre­sentes hoje no mundo re­li­gioso contra a dou­trina so­ci­a­lista re­montam, de fato, ao século pas­sado. E Con­nolly as res­pondeu, uma por uma, como so­ci­a­lista - mas tam­bém como ca­to­lico. Sua es­crita agu­çada, sua pre­o­cu­pa­ção com seu povo e na­ção, seu co­nhe­ci­mento his­to­rico e te­o­lógico, e, acima de tudo, seu senso de honra - de­mons­trado na frase pro­fe­rida antes de seu vil fu­zi­la­mento - sem dúv­idas será um grande alu­miar para os co­ra­ções e mentes que creem, in­de­pen­dente do credo.

Em se­gundo lugar, o pu­bli­camos para dar prova, agora aos so­ci­a­listas, de que a fé de um homem não ne­ces­sa­ri­a­mente im­plica em um dis­tan­ci­a­mento com os fla­gelos ter­renos, e por muitas vezes é na ver­dade a “raiz moral” para a ação contra eles. Assim, não deve nunca ser des­pre­zada, como Con­nolly de­monstra.

Os es­critos aqui co­le­tados es­tão apre­sen­tados por ordem his­tórica, do mais an­tigo ao mais novo. Damos es­pe­cial aten­ção a “Tra­balho, Na­ci­o­na­li­dade e Re­li­gião”, livro que Con­nolly pu­blicou em 1910, res­pon­dendo ao padre Kane. Ali está a prova maior de seus co­nhe­ci­mentos te­o­lóg­icos e his­tór­icos, e de sua ca­pa­ci­dade ar­gu­men­ta­tiva.

Tam­bém des­ta­camos “So­ci­a­lismo e Re­li­gião: O des­co­nhe­cido e o in­cog­nos­ci­vel”, que ins­pira o ti­tulo desta co­le­ta­nea, e que, es­crito em 1899, aclara ques­tões vi­gentes ainda hoje quando tra­tamos dos temas. Por fim, res­sal­tamos a im­por­tâ­ncia de “As Cri­an­ças, o Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores de Trans­portes Ir­lan­deses e o Ar­ce­bispo”, es­crito no de­correr do Lo­caute de 1913, e onde fica claro o senso de honra e a dis­po­si­ção re­vo­lu­ci­o­na­ria do autor, que de­clara: “Sua Graça, nós es­tamos de­ter­mi­nados para lutar até contra a morte - a morte da qual al­guns de nós já so­fremos, a morte para a qual o seu hu­milde servo olhou na face sem pes­ta­nejar. Seria pre­fe­ri­vel en­tregar no­va­mente os tra­ba­lha­dores de Du­blin ao in­ferno da es­cra­vi­dão da qual eles es­tão emer­gindo. Sua graça, nós vamos lutar!”


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