quinta-feira, 20 de agosto de 2015

BEBEL, August



Nasceu em Deut, na Alemanha, em 1840. Filho de militar prussiano, trabalhou na adolescência como aprendiz em uma oficina, e após quatro anos de aprendizagem, obteve o titulo de mestre torneiro.

Autodidata, cedo se ligou ao movimento operário. Visto como de grande capacidade de organização e tática politica, ocupou lugar importante na Associação dos Trabalhadores alemães (Arbeitervereine).

Em 1861 mudou-se para Leipzig, onde abriu um negócio próprio, se filiando a uma sociedade de artesãos, iniciando sua atuação politica. 
  
Em 1865, por influência de Liebknecht, Bebel converteu-se ao socialismo cientifico, se aproximando de Marx e Engels. 

Elegeu-se em 1867 deputado para o  Parlamento (Reichstag), na Alemanha do Norte, participando no ano seguinte no Congresso de Nuremberg, no qual Bebel e Liebknecht decidiram incorporar-se  na 1ª Internacional.

"A mulher e o socialismo"
Em agosto de 1869, juntamente com Wilhelm Liebknecht, fundou em Eisenach, o Partido Operário Social-Democrático (ou Partido Social-Democrata dos Trabalhadores - SDAP), cuja meta era abolir o “Estado de classes” e implantar um “Estado Livre Popular”, contrapondo-se Lassalle, que defendia a colaboração de classe e a manutenção do Estado burguês.

O SDAP de Bebel e Liebknecht fundiu-se com a Associação Geral dos Trabalhadores alemães – ADAV) liderada por Lassalle, num Congresso realizado na cidade de Gotha (Alemanha) nos dias 22 a 27 de maio de 1875.

Este fato recebeu duras criticas de Karl Marx na obra “Critica ao Programa de Gotha”, escrita por ocasião do Congresso, mas só publicada por Engels em 1891 na revista Neue Zeit, portanto 8 anos após o falecimento do seu autor.

"Charles Fourier, sua vida
e sua teoria"
Desse Congresso de unificação de eisenachianos  e lassallianos surgiria em 1890 o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD).

Com a eclosão da guerra franco-prussiana, liderou a oposição, à politica expansionista de Bismarck, que ordenou sua prisão. Solto foi novamente preso, condenado a dois anos de reclusão, acusado por alta traição por ter votado contra os créditos de guerra. 

Novamente eleito deputado, assumindo oposição à politica do Governo, consolidou sua posição entre a cúpula dirigente do Partido Social-Democrata.

Em 1900, com o falecimento de Wilhelm Liebknecht, secretario geral do Partido, Bebel passou a ocupar sua liderança, que se tornou uma das principais formações políticas de esquerda na Alemanha. 

Escreveu: “Cristianismo e socialismo” (1874), “A guerra dos camponeses na Alemanha” (1876),  “A mulher e o socialismo” (1879), “Charles Fourier, sua vida e sua teoria” (1888).

August Bebel, faleceu em  Passugg, na Suiça, em 1913.


(Dados compilados por Aluizio Moreira)

domingo, 16 de agosto de 2015

Para ajudar a compreender a crise da esquerda



Garis do Rio de Janeiro,  protagonistas, em 2014 e 2015, de greves que tiveram
repercussão nacional
Hipótese de Guy Standing sobre reconfiguração das classes sociais pode ser elemento importante na análise do novo conservadorismo brasileiro — e na busca da virada


Por Rafael Evangelista

A bancada sindical, que colabora decisivamente na defesa dos interesses dos trabalhadores assalariados, é muito menor na atual legislatura. São 46 deputados, número bem próximo ao de 1988, quando foram 44. Em 2002, ano da eleição de Lula, os sindicalistas foram 74. Caíram na eleição seguinte para 54, possivelmente sentindo o baque na imagem do PT após o mensalão. Em 2010 a bancada registrou seu maior número, 83 deputados.

Pode-se atribuir isso ao propalado distanciamento do PT de suas bases. Também é possível afirmar que o partido mais identificado com o sindicalismo cometeu erros estratégicos, apostando em nomes errados na hora de construir seu quociente eleitoral. Porém, é preciso registrar que o PT vem perdendo força nas cidades operárias paulistas, seu conhecido reduto eleitoral. Somente em uma delas, Hortolândia (SP), o governador Geraldo Alckmin não teve a maioria dos votos pela sua reeleição no primeiro turno.

Ao mesmo tempo, assistimos à ascensão da bancada conservadora. Nomes como Marco Feliciano, em São Paulo, e Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, aparecem como grandes puxadores de votos – este último acompanhado por seu filho, também deputado eleito, mas por São Paulo. Essa não parece ser uma tendência restrita a nomes específicos: a pauta conservadora, contra os direitos humanos, a favor da brutalidade policial, contra os direitos sexuais foi encampada por diversos candidatos espalhados pelo país. Estes enxergam a adesão a bandeiras radicais como forma de alavancarem votos. Candidatos progressistas acabam se tornando mais tímidos, com medo de desagradar um eleitorado bastante vocal e que parece crescer.

Os fenômenos parecem ser, então, dois: o declínio de políticos mais identificados com causas trabalhistas e a ascensão de personagens conservadores que flertam com o populismo de direita. A explicação para isso é complexa, mas parte dela pode estar nas mudanças que o mundo do trabalho vive nos últimos anos, com a queda do trabalho regular, assalariado, com benefícios protegidos por lei e o crescimento do setor de serviços e, mais especificamente, do trabalho fragilizado, intermitente, incerto.

O termo precariado, corruptela de precário com proletário, tem sido utilizado para referenciar a emergência do que seria uma nova classe social, um contingente crescente de pessoas que nem gozam de renda estável (vinda do trabalho assalariado ou de renda) nem estão na vala do desemprego crônico. Talvez ele possa nos trazer algumas boas sacadas.

Guy Standing
Há bastante controvérsia sociológica sobre uma precisa definição do grupo (ou mesmo se este constitui uma classe), mas o fenômeno se torna bastante concreto se olharmos a nossa volta e percebermos situações que vêm se tornando comuns no mercado de trabalho atual. Profissionais com formação educacional satisfatória ou muito boa, que conseguem viver e têm períodos de renda estável, porém intercalados com tempos de ganho muito baixo, em que as dívidas crescem e cada vez é mais difícil pagá-las com o dinheiro que aparece quando a maré melhora. Em geral são pessoas que executam funções abaixo de sua formação ou expectativa. Passam muito tempo “trabalhando para trabalhar”, construindo relações ou fazendo favores que podem render alguma recompensa financeira num futuro incerto.

O economista inglês Guy Standing fala de uma nova divisão de classes, tentando encaixar o fenômeno do precariado em um cenário ampliado. Sua tipificação parece por demais europeizada, mas pode ser útil para começar a precisar o que está acontecendo. No topo da pirâmide das classes estariam os grandes herdeiros, as celebridades ou os executivos das grandes empresas, capazes de reunir poupança mais do que suficiente para situações momentâneas de crise.

Bem abaixo estaria o que ele chama de salariado, os funcionários, públicos e privados, que gozam de férias, benefícios e estabilidade no emprego por lei ou porque sua demissão custaria demais aos seus patrões.

Próximo a eles estariam o que Standing chama de proficians, profissionais sem relação fixa de emprego, que trabalham por contrato, mas cuja combinação de habilidades faz com que consigam facilmente se colocar no mercado com ganhos altos ou bastante bons, o suficiente para não viverem momentos muito incertos e ainda gozando de independência.

Abaixo deles estaria o típico trabalhador industrial tradicional, com emprego fixo, relação formalizada. Um grupo que encolhe rapidamente, substituído pela mecanização ou pela inventividade das empresas na reformulação das estruturas tradicionais de trabalho.

O precariado estaria abaixo desses quatro grupos, ladeado pelos desempregados e pelos socialmente desajustados. Em relações efêmeras de emprego ou renda (bolsas, contratos curtos e sazonais de trabalho, bicos) viveria a constante expectativa de ascender a relações mais formais e com benefícios, ou mesmo conseguir se estabilizar como trabalhador independente. Mas também seria constantemente assombrado e psicologicamente torturado pela perspectiva concreta de descenso social a uma situação bastante desumana, sem direito ao mínimo para viver dignamente.

Standing trata o precariado não somente pela via da relação enfraquecida de trabalho, mas também pelo impacto psicossociológico sofrido por essa categoria. Seria um grupo sem senso de futuro, sem perspectiva de carreira e sem relação identitária positiva com a profissão e desligado da sociedade. Vivendo situações que só podem ser classificadas como de alienação, anomia, ansiedade e que levam ao ódio. Nesse sentido, o desligamento da política seria um sinal preocupante. E a classe seria particularmente vulnerável ao neofascismo.

Parece problemático transferir automaticamente essas observações a um país como o Brasil, com uma história social complicada e com um mundo do trabalho que só muito recentemente conseguiu alguns frágeis direitos. Mas é justamente esse grupo de trabalhadores industriais tradicionais que liderou as conquistas não somente entre 1970 e 1980, mas desde a fase de expansão industrial no início do século, que vem se enfraquecendo.

Esse processo parece tratar de algo ainda não consolidado. O precariado vem crescendo e diversas formas “criativas” de se explorar esse trabalho estão sendo inventadas, em particular pela indústria de tecnologia, que vem dando vazão a novas formas de conciliar a insegurança financeira e psicológica dos precários com a busca de lucro dos intermediários. É a sharing economy.

Aplicativos como o AirBnB, Uber, Favor e muitos outros são tocados no dia a dia majoritariamente por precários. Pessoas que enxergam nesses sistemas um jeito de entrar no mercado de trabalho de maneira independente e sem burocracia. É difícil argumentar que o Uber, por exemplo, não seja uma viabilização, edulcorada pela ideologia do Vale do Silício, do bom e velho táxi pirata. Boa parte dos imóveis disponíveis no AirBnB não são sofás oferecidos generosamente pelos seus donos a simpáticos viajantes. São imóveis disponíveis para temporada, agenciados por precários que intermedeiam o verdadeiro dono e o hóspede, prestando serviços como arrumar o apartamento e receber o viajante.

Que caminhos políticos tomará essa economia global cada vez mais liberalizada, intermediada por sistemas informacionais e ávida por força de trabalho criativa e barata, é ainda algo incerto. O efeito que terá em países subdesenvolvidos, cujos direitos políticos e civis já são historicamente frágeis, também é algo difícil de prever. Porém, parece ser bastante clara a necessidade de se estudar melhor a dinâmica política do precariado e agir reconstruindo laços de solidariedade e ligações culturais entre grupos explorados.


domingo, 9 de agosto de 2015

A linha vermelha



CARLOS GASPAR – Em três semanas, entre 12 de Junho e 4 de Julho, as bolsas de Shanghai e de Shenzhen cairam trinta por cento, perderam três triliões de dólares (ou 18.6 triliões de Renminbi) e provocaram um momento de pânico na direcção do Partido Comunista da China, forçado a intervir decisivamente para travar os riscos de colapso dos mercados financeiros.

A intervenção das instituições oficiais nos mercados começou por uma redução das taxas de juro, acompanhada pela injecção de 470 mil milhões de Renminbi no sistema bancário, prolongou-se com a proibição aos accionistas de referência e aos chefes de empresa de vender acções, acompanhada pelo compromisso dos fundos estatais em investir 120 mil milhões de Renminbi na aquisição de titulos, e culminou com a ordem de suspender as transacções de títulos da maioria das empresas cotadas, acompanhada pela intervenção do banco central na compra de acções. Desse modo, a direcção do Partido Comunista disciplinou o mercado: o pânico parou a tempo e a ameaça de colapso passou a ser, na fórmula do Goldmann Sachs, uma “correcção rápida e furiosa”, que fez as bolsas perderem o que tinham ganho nos últimos meses e regressar aos níveis, aparentemente mais realistas, de Março deste ano.

O tema das relações entre o Partido Comunista e as crises financeiras é irresistível. Marx jogava, com sucesso, na bolsa de Nova Iorque, mas não teorizou sobre a regulação dos mercados. Lenin não deixou nada escrito sobre a linha correcta para conter o pânico dos investidores ou sobre o modo de submeter as bolsas à vontade do Partido.

Stalin julgou que a Grande Depressão era a crise final do capitalismo e fez a reputação da União Soviética valorizando as virtudes da sua imunidade à instabilidade do capitalismo financeiro. Mas não há nada nos clássicos do marxismo-leninismo que possa orientar a direcção do Partido Comunista da China sobre como responder a uma crise dos mercados financeiros, por uma boa e simples razão: nenhum dos teóricos de referência imaginou ser possível um modelo de comunismo capitalista.

O “socialismo com características chinesas” é um “socialismo de mercado” e, como tal, tão ou mais vulnerável do que as “democracias de mercado” às oscilações bruscas e às flutuações misteriosas do capitalismo financeiro. À partida, as respostas socialistas e as respostas democráticas às crises não devem ser diferentes e, na fase inicial, as instituições chinesas recorreram a medidas convencionais para restaurar a confiança dos investidores — incluindo os 90 milhões de pequenos investidores chineses. Mas, numa fase posterior, perante a persistência dos “comportamentos irracionais”, o Partido recorreu a medidas excepcionais de intervenção estatal que revelam os limites das afinidades entre o regime chinês e os seus primos capitalistas, cuja capacidade (crescente) de inovação neste domínio está circunscrita pelo estado de direito.

Essa questão é séria em si mesma, mas também porque está em causa o sentido da evolução política chinesa, na luta entre duas linhas — a linha negra que quer regresssar ao estatismo nacionalista e proteccionista e a linha vermelha que quer continuar a linha da liberalização e da abertura inaugurada por Deng Xiaoping.

A crise confirmou, desde logo, a necessidade de reformar o sistema financeiro na China. O último relatório do Banco Mundial sublinhava a urgência de “reconfigurar o papel do Estado” para travar os investimentos improdutivos e os excessos de endividamento num sistema bancário com uma regulação demasiado fraca. Por outro lado, a acumulação das dividas dos governos provinciais e das entidades empresariais, que somam 280% do produto interno bruto, revelam uma vulnerabilidade acrescida do modelo de capitalismo de Estado chinês, onde a divida cresce duas vezes mais depressa do que a economia. Por último, segundo as previsões dos planificadores chineses, os ritmos de crescimento tendem, naturalmente, a diminuir para se aproximarem dos 7% anuais, uma mudança que marca o fim de um ciclo excepcional.

Nenhum desses problemas é inesperado, tal como a quebra nas bolsas era previsível, mais tarde ou mais cedo. Nesse sentido, não há nenhuma razão para rever as avaliações sobre a restauração gradual da posição internacional da China como uma grande potência, que representa o essencial do programa do regime comunista.

Porém, não é evidente quais são as consequências da crise para a luta entre as duas linhas. A crise tanto pode servir para demonstrar os malefícios do capitalismo e a interferência de “forças estrangeiras hostis” que querem derrubar o regime comunista na China, como para sustentar a urgência de modernizar o modelo do comunismo capitalista para o tornar mais competitivo, mais aberto e mais responsável, quer no domínio social, quer no domínio ecológico.

O Presidente Xi Jinping e o primeiro-ministro Li Keqiang querem dar mais força ao mercado, ao mesmo tempo que resistem à liberalização política, os seus adversários internos querem dar mais força ao Estado e inverter a liberalização económica. Os primeiros reconhecem a necessidade de manter a estabilidade internacional para a China poder continuar concentrada no seu processo de modernização, os seus adversários entendem ter chegado o momento de demonstrar o poder acrescido da China para impor a sua hegemonia regional.

Na China, a linha negra é o autoritarismo nacionalista e proteccionista e a linha vermelha a combinação entre o regime comunista, a modernização do sistema capitalista e a abertura externa: se a primeira prevalecer, a transição internacional vai acelerar.

Texto postado originalmente em:

http://publico.uol.com.br/mundo/noticia/a-linha-vermelha-1702679


domingo, 2 de agosto de 2015

Anarquistas e libertários


Causa espanto a indiferença e a tolerância dos “anarquistas” em relação às apropriações mais ou menos indevidas que muitos andaram fazendo do rótulo de “libertário”. Mas eles rebatem dizendo que delimitar o termo equivaleria a contrariar os próprios princípios que o norteiam


Por Jean-Pierre Garnier


Por muito tempo, os termos “anarquista” e “libertário” foram considerados indissociáveis. As organizações que os adotavam viam nessas expressões uma forma de definir seu posicionamento na esfera política – mais precisamente fora dela ou em seu limiar. 

Muitos os combatiam ou os reprovavam. Além dos guardiões oficiais da ordem burguesa, seus principais adversários eram os membros de outros partidos, tanto de esquerda como de direita, jornalistas de toda sorte e a “opinião pública”, que sempre enfiava os anarquistas e os libertários dentro do mesmo saco. 

Hoje em dia, a associação entre as duas palavras continua pertinente aos olhos dos interessados pelo tema, ainda que eles façam questão de precisar por que essas denominações não são sinônimas. O anarquismo, dizem, é a teoria política que escora as duas noções e tem como fim último a autoemancipação coletiva dos trabalhadores diante dos poderes que os oprimem. Tal objetivo implica a autolibertação dos indivíduos – emblema da vertente libertária – em relação às instituições, às normas e às crenças que os alienam. Colocada dessa forma, a distinção entre as duas noções na verdade ressalta ainda mais sua complementaridade semântica e política. 

Em contrapartida, fora dos círculos restritos cujos integrantes acreditam que a existência do Estado continua sendo uma ameaça às liberdades, tudo indica que a associação entre anarquistas e libertários deixou de ser tão óbvia assim. De fato, tornou-se uma atitude comum entre políticos, intelectuais e jornalistas opor de maneira dicotômica os termos “anarquista” e “libertário”. De um lado, o anarquismo tende agora a substituir o falecido comunismo no papel de figura do Mal, ao lado do fundamentalismo islâmico. De outro, o epíteto “libertário” acabou constituindo um rótulo cultural fartamente veiculado na mídia, muito utilizado pelos “revoltados de butique” de toda laia, que disfarçam sua adesão à ordem estabelecida por meio de um verniz anticonformista1. 

O caos niilista

Vale lembrar que esse duplo processo de demonização e de neutralização não é exatamente uma novidade. A partir do final do século XIX, o anarquismo poderia ter sido facilmente identificado com o terrorismo por sua “propaganda por meio do fato” – atentados realizados por alguns grupos na Rússia e na França. E de maneira mais geral, o anarquismo seguiu mantendo por muito tempo o significado de um caos social niilista, afastando-se da concepção da vida em sociedade que o geógrafo Elysée Reclus resumiria na fórmula “a ordem sem o poder”2.   

Posteriormente, o anarquismo não tardou a ser alvo de outra descaracterização linguística, só que dessa vez destinada a valorizar artistas e escritores que se dedicavam abertamente a “atropelar os códigos estéticos burgueses”. Ao longo do século XX, muitos se enquadraram nessa vertente, desde os protagonistas do movimento Dadá e da “revolução surrealista” que lhe sucedeu, até os “turbulentos” cineastas da Nouvelle Vague, passando por certos romancistas ou ensaístas reacionários do pós-guerra que se colocavam como “anarquistas de direita”. 

Mais tarde, o qualificativo de “libertário” tomou seu lugar, entre outros, no campo da música popular francesa, a “chanson”, com Georges Brassens, Jacques Higelin e Renaud. Após ter sido dissociado de um anarquismo que acabara classificado como doutrina de transformação social obsoleta3, esse termo acompanhou uma liberação dos costumes e das mentes, particularmente afinada com a liberalização da economia, a ponto de dar à luz o seguinte oximoro mutante: o do “liberal-libertário”.

Antes de ser sacramentada como um conceito, no sentido publicitário do termo, essa expressão fora proferida como acusação por um sociólogo do Partido Comunista Francês (PCF), para fustigar o advento de um “capitalismo da sedução”, simultaneamente repressivo no plano “social” e permissivo no plano “societário”. 

Trata-se de uma descrição precisa dos tropeços direitistas de certos líderes da revolta de maio de 1968, que passaram a menosprezar a revolução, valorizando apenas aquela das subjetividades4. O mais destacado entre eles é ninguém menos que Daniel Cohn-Bendit, atualmente deputado europeu pelo partido ecologista alemão Die Grünen. Como tantos outros, ele passou “do ‘detestar os poderosos’ para a paixão pelo poder; do ‘não’ sistemático da contestação para o ‘sim’ extasiado do assentimento; da candura e da intransigência de um levante iminente para as posturas e as imposturas de um conformismo servil”5. 

Transgressão individual

Ao longo dos anos, com o aumento das desigualdades, da precariedade e da pobreza no mundo, a dupla “liberal-libertário” aos poucos perdeu a credibilidade. Isso, porém, não resultou numa reaproximação com o anarquismo. Ao contrário: a dissociação entre os dois só se aprofundou. Enquanto este último é cada vez mais criminalizado, principalmente em função da retomada das lutas baseadas na ação direta, uma reação ao agravamento da marginalização em massa e ao endurecimento da repressão, o posicionamento libertário goza de prestígio entre as elites. Prova disso é o fascínio crescente do filósofo Michel Onfray, cujo “individualismo hedonista e ateu” criou certa ilusão nos meios anarquistas, apesar do seu apetite publicamente assumido por uma “gestão libertária do capitalismo”. 

Causa espanto a indiferença e a tolerância dos “anarquistas” em relação às apropriações mais ou menos indevidas que muitos andaram fazendo do rótulo de “libertário”. Mas eles rebatem dizendo que delimitar o termo equivaleria a contrariar os próprios princípios que norteiam esse rótulo. E acrescentam a seguinte pergunta: as recuperações e os desvirtuamentos dos quais a expressão tem sido objeto não seriam uma prova, afinal, de que a causa libertária vem ganhando popularidade? Esses supostos anarquistas simplesmente parecem não perceber que toda essa movimentação leva à perda do radicalismo crítico, que é monopolizado e absorvido por uma culturalização individualista e desengajada da política.

Dentro de um contexto de restauração política e ideológica, estamos assistindo a uma disputa na qual os adversários opõem o “social”, assimilado ao alistamento militar e à uniformização, ao “societário”, que é o epicentro de todas as “libertações”, para deixar claro que a submissão às “obrigações geradas pela economia” de maneira alguma implica a renúncia aos valores contestatórios do passado. Daqui para frente, preocupado acima de tudo com seu desenvolvimento pessoal imediato, o neopequeno-burguês “libertário” rejeitará toda perspectiva de autoemancipação coletiva, que ele enxergará como uma ameaça contra a democracia e o Estado de direito. 

Limitada ao modo de vida concebido como “estilo de vida”, a “não-conformidade” não tem mais motivo para investir contra os códigos e as normas oficiais, uma vez que sua “transgressão” individual, institucionalizada, subvencionada e mercantilizada participa da renovação da dominação capitalista. Em contrapartida, agora que contam com aprovação – espalhafatosa ou tácita – dos beneficiários dessas liberalidades, os governantes poderão se dar ao luxo de reprimir toda forma de luta, comportamento ou palavra que represente um obstáculo para essa dominação. Isso equivale a dizer que os “neolibertários” nada fazem senão acrescentar o indispensável prefixo “neo” a um conservadorismo reforçado.


Notas

1   Vale lembrar que o neologismo “libertário” nasceu no final dos anos 1850 da escrita corrosiva de um anarquista, Joseph Déjacque, que dedicou sua vida a espinafrar os compromissos e os comprometimentos da pequena burguesia republicana da época. 
2   De modo algum isso significa que se possa “mudar o mundo sem tomar o poder”, segundo afirmarão alguns teóricos importantes em sua busca de alternativas à globalização neoliberal. Em primeiro lugar, porque é imprescindível tomar o poder da burguesia para mudar o mundo. Em segundo, porque o poder de mudar o mundo exclui, para os anarquistas, que alguém possa exercê-lo “sobre o povo”, já que é precisamente este último que, auto-organizado, deteria o poder em vez de delegá-lo.    
3   A “velha guarda” anarquista francesa não raro se mostra vulnerável a essa depreciação. Atolada no culto aos grandes ancestrais e às polêmicas datadas – como aquela de Proudhon e Bakunin versus Marx e Engels –, reduzindo o pensamento em torno da filosofia de Marx ao marxismo de aparelho (partidário ou estatizante), ignorando os pensadores mais importantes do comunismo libertário (A. Pannekoek, O. Rühl e P. Mattik) e movida por um antimarxismo visceral, ela acaba deixando de lado a análise materialista das transformações do capitalismo, arriscando-se a não entender mais nada do processo e chegando até mesmo a dar crédito às análises de alguns defensores do sistema em vigor, tais como Stéphane Courtois. 
4   Michel Clouscard, Néo-fascisme et idéologie du désir, Denoël, 1973 ; Le capitalisme de la séduction, Éditions sociales, 1981. 
5   François Cusset, La décennie – Le grand cauchemar des années 1980, La Découverte, 2006.


Jean-Pierre Garnier é sociólogo, autor do  livro Contra os territórios de poder.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Qual o pacto político possível?


Por Hamilton Octavio de Souza



A crise política brasileira não tem medida de extensão nem tempo previsível definido. Pode se prolongar por anos, com seriíssimos danos para as classes médias e principalmente para as camadas populares, para os mais pobres. Por isso mesmo, compete aos brasileiros comprometidos com a democracia, a inclusão social, a maioria dos trabalhadores e a construção de uma sociedade justa e igualitária, propor e defender um pacto nacional para superar não apenas a atual situação de degradação política como também o nefasto programa econômico e todos os seus estragos sociais.

O ideal seria que as esquerdas tomassem a iniciativa para destruir a atuação da direita, nos vários poderes da República, no governo, no Congresso Nacional e nas demais instituições. Mas as esquerdas estão divididas entre as forças que se negam aos esquemas de conciliação com os grupos empresariais, conservadores e oligárquicos, e aqueles que passaram a fazer alianças com esses grupos desde 2002. As esquerdas estão pulverizadas em várias facções e divididas sobre o que fazer diante do fracasso do governo petista e diante da baixa aprovação da presidente Dilma Rousseff.

Dirigentes petistas vinculados ao sindicalismo e aos movimentos sociais tentam reorganizar a base de sustentação dos governos Lula (2003 a 2010), mas a resistência da população cresce todos os dias. Não existe mais ligação direta e automática entre os trabalhadores e mais pobres com o Partido dos Trabalhadores. Primeiro porque o PT não deu respostas concretas às demandas dos trabalhadores nas questões sociais e de qualidade de vida na cidade e no campo. Segundo porque o PT mudou totalmente o discurso programático após as eleições. Terceiro porque várias lideranças do partido estão seriamente envolvidas nos esquemas de corrupção e no tráfico de influência.

O que resta aos partidos progressistas e de esquerda, aos movimentos sociais combativos e aos setores populares excluídos do jogo político institucional pelo modelo autoritário de imposição do neoliberalismo? Esses grupos, setores e correntes precisam conversar, trocar ideias, debater e necessariamente articular uma agenda e um programa de atuação apoiado por todos, que seja a expressão de demandas e anseios da grande maioria dos trabalhadores e da população brasileira.

É preciso, pois, interferir efetivamente na agenda política nacional com uma organização forte, coesa, fundada em princípios éticos e programas transformadores, no marco de uma FRENTE AMPLA DE UNIDADE POPULAR, sob a qual se possam reunir todos aqueles e aquelas que não concordam com a atual política econômica baseada na hegemonia do sistema financeiro, nas propostas neoliberais e no predomínio dos mercados. Precisamos, urgentemente, combater o conservadorismo das oligarquias, a direita política e o modelo neoliberal.

Devemos defender, sem concessões, propostas políticas voltadas para o bem-estar coletivo e individual das pessoas; devemos valorizar os princípios norteadores dos direitos humanos e da cidadania; devemos aprofundar e ampliar os sistemas e métodos da democracia; devemos apoiar de forma intransigente a reforma agrária, o investimento pesado na educação pública, o direito à moradia digna, à mobilidade urbana, o emprego de qualidade, o trabalho decente e a remuneração justa. A preocupação do Estado deve ser o cidadão, o morador, o trabalhador, a criança, o jovem, o estudante, os homens, as mulheres e os vários tipos de família. O Estado deve ver o ser humano antes do lucro, do interesse do capital e do jogo do mercado.

A inversão de prioridades é inevitável. Queremos partidos que tenham programas voltados para a sociedade. Queremos representantes que expressem fielmente os desejos dos representados. Queremos governos que atuem com total transparência. Queremos construir organizações sociais e políticas que não se vendam ao capital e aos poderosos. Queremos que os recursos públicos sejam integralmente utilizados no bem-estar dos cidadãos, especialmente daqueles que mais necessitam da proteção do Estado. Queremos viver numa sociedade livre, justa, democrática, soberana, sem exploração e sem opressão. Queremos curtir todos os dias a alegria da paz e da felicidade, com a perspectiva de um mundo solidário e fraterno para nossos filhos, descendentes e futuras gerações.

Queremos, enfim, construir um novo Brasil, livre das desigualdades, livre do preconceito, livre das oligarquias, livre do autoritarismo, livre de todos aqueles que sempre defenderam seus privilégios, a escravidão, a exploração e a opressão. O momento político exige a presença e a atuação da FRENTE AMPLA DE UNIDADE POPULAR – por democracia e mudanças estruturais na sociedade brasileira.


terça-feira, 21 de julho de 2015

Marxismo americano, este desconhecido


Cartaz da Associação Internacional dos Trabalhadores Industriais (IWW).
Fundada em Chicago (1905) teve influência marxista em diversos
períodos de sua história
Crise econômica provoca reedição de livo que narra trajetória de 150 anos. Autor prevê: país viverá novamente intensas lutas sociais


Por Renato Pompeu, em Retrato do Brasil


A esmagadora maioria dos brasileiros, mesmo entre o público culto em geral e o de esquerda em particular, imagina que o marxismo é uma presença negligenciável nos EUA, país famoso porque lá mesmo as camadas populares são partidárias do individualismo e da privatização total da economia – em suma, do liberalismo mais radical. No entanto, se mantém nos EUA uma tradição marxista que já dura mais de 150 anos sem outras quebras de continuidade que não a mundialmente bem conhecida dança das diferentes correntes, ora predominando umas, ora ascendendo outras.

Prova disso é o livro Marxism in the United States – a history of the american left, de autoria do historiador, professor universitário e militante Paul Buhle, 69 anos, lançado este ano pela Verso, em terceira edição revista e atualizada. A primeira edição surgiu em 1987, e a segunda, apenas quatro anos depois, em 1991, o que demonstra o grande interesse que a obra despertou entre o público americano naqueles anos de crise financeira. Retomada a “normalidade” capitalista, o interesse por uma terceira edição só surgiu agora, com os sofrimentos da população americana em meio à crise estrutural que se arrasta desde 2008.

A intensa atenção despertada por esse livro, em meio a muitos outros sobre o marxismo americano que foram editados ao longo de décadas nos EUA, se explica por dois motivos principais. Em primeiro lugar, ele cobre todos os períodos da história do marxismo nos EUA e não se cinge a uma época específica. Assim, Buhle fala dos imigrantes socialistas que formaram a espinha dorsal do marxismo americano desde meados do século XIX; da nova fase surgida com a fundação do Partido Comunista dos Estados Unidos da América, na esteira da Revolução Russa, dos êxitos desse partido com a grande influência da chamada Frente Popular nos anos 1920 e 1930; da crise e das divisões nos anos 1950, especialmente a divisão em 1957 entre os pró-soviéticos e os que ficaram profundamente afetados pelas revelações, na própria União Soviética, em 1956, dos crimes lá cometidos em nome da construção do socialismo – incluindo-se nesses anos a perseguição macarthista, ela própria uma demonstração de que o marxismo se tinha tornado uma presença importante nos EUA: a participação dos comunistas no movimento antirracista, em que eles foram o foco crucial do apoio branco aos movimentos negros; o surgimento nos anos 1960 e 1970 de um poderoso marxismo fora do PC e entre os meios que lutavam contra a Guerra do Vietnã; e, finalmente, as peripécias do marxismo americano desde aquele auge até o presente século XXI.

A segunda razão do grande interesse despertado pelo livro é que ele não defende explicitamente corrente nenhuma das numerosas vertentes do marxismo americano. Embora tenha pertencido ao Partido Socialista dos Trabalhadores e ao Estudantes por Uma Sociedade Democrática e seja atualmente um dos líderes do Movimento por uma Sociedade Democrática, Buhle, que se considera um marxista não ortodoxo, trata as diferentes correntes marxistas do ponto de vista de um historiador tanto quanto possível isento, sopesando os pontos fortes e fracos de cada tendência e de cada momento.

Para termos uma ideia da importância do marxismo na cultura americana e da relevância do marxismo americano para a civilização globalizada, basta citarmos, pela ordem alfabética do sobrenome, alguns dos personagens do livro de Buhle que tiveram papel saliente, favorável ou desfavorável, na constituição do marxismo nos EUA: o filósofo Thomas Adorno, o economista Paul Baran, o cantor Harry Belafonte, o poeta William Blake, o ator Humphrey Bogart, o pesquisador Harry Braverman, o militante sem-terra Cesar Chavez, o escritor Stephen Crane, o líder progressista John Dewey. Constam ainda da lista o poeta T. S. Eliot, o psiquiatra e militante Franz Fanon, o escritor William Faulkner, o físico Enrico Fermi, o escritor Gustave Flaubert, os psicanalistas Sigmund Freud e Erich Fromm, a atriz Greta Garbo, o poeta Heinrich Heine, a escritora Lillian Hellmann, o filósofo Max Horkheimer, o dramaturgo Henrik Ibsen, o político Jesse Jackson, o crítico literário Fredric Jameson, o cineasta Spike Jones, o reverendo Martin Luther King Jr, o cientista político Karl Korsch. Engrossam a relação o antropólogo Claude Lévi-Strauss, o presidente Abraham Lincoln, o jornalista Walter Lippman, o escritor Jack London, o ator Bela Lugosi, a atriz Jeanette MacDonald, os sociólogos C. Wright Mills e Lewis Mumford, o presidente Richard Nixon, o escritor George Orwell, a escritora Dorothy Parker, o poeta Ezra Pound, o presidente Ronald Reagan, o jornalista John Reed, o cantor Paul Robeson, o presidente Franklin Roosevelt, o escritor Upton Sinclair, o cantor Bruce Springsteen e o economista Paul Sweezy.

Paul Buhle, o autor, considera-se marxista não-ortodoxo e vê corrente
com força ampliada em todo o mundo
Como se vê pela simples lista de alguns nomes citados por Buhle, o marxismo está longe de ser algo à margem da sociedade americana. Pelo contrário, está ligado a aspectos centrais da cultura e da sociedade dos EUA. No entanto, nestes momentos de crise estrutural do capitalismo internacional e particularmente do capitalismo americano, que vive uma estranha situação de recuperação do PIB combinada com o agravamento do empobrecimento da população pela continuidade do desemprego agudo, talvez mais importante do que relembrar os auges do esquerdismo nos EUA nos anos 1920 e 1930 e nos anos 1960 e 1970 seja assinalar a grande novidade da nova edição do livro de Buhle: o estado do marxismo americano de 1991 até os dias de hoje.

Ele assinala inicialmente que as antigas interpretações do marxismo adotadas pelos imigrantes europeus, pelos americanos influenciados pelas grandes greves do começo do século XX, pelos adeptos de Stalin e de Trotski nos anos posteriores hoje parecem estar a anos-luz de distância e não deixaram herdeiros à altura de seu rigor teórico e de seu empenho na militância. Quanto à Nova Esquerda dos anos 1960 e 1970, para usar os termos consagrados por Friedrich Engels, deixou herdeiros que abandonaram o “socialismo científico” e o marxismo pelo “socialismo utópico” secularmente tão desprezado e ultimamente tão vigoroso nos EUA – e, podemos dizer, em muitos outros lugares do mundo, como se pode ver no chamado “socialismo internético”.

Mas, por outro lado, se o marxismo vai mal, Marx vai bem na Europa, na Ásia e na América do Sul, diz Buhle. Nunca como hoje em dia os textos do pensador alemão foram lidos e debatidos em escala global por tantas pessoas nesses continentes e, em menor escala, na própria América do Norte. Ele sustenta que os antigos marxismos dependiam ou de afinidades eletivas entre adeptos de diferentes versões empobrecidas das teorias e constatações de Marx, seja da Segunda, Terceira ou Quarta Internacionais, ou do poderio político e econômico dos antigos Estados socialistas. Agora, diz Buhle, está surgindo uma verdadeira massa crítica globalizada de pessoas que realmente entendem pelo menos grande parte do que Marx pretendeu dizer, e não uma versão vulgarizada disso.

Especialmente, acresce Buhle, é notável o fato de que a proporção de jovens entre os interessados em estudar Marx é globalmente maior em relação aos mais velhos mesmo em comparação com os chamados “anos de ouro” da juventude mundial, as décadas de 1960 e 1970. Ao mesmo tempo, não é possível manter as velhas certezas do antigo marxismo e não se tem noção do que é que realmente se pode fazer com as ideias hoje bem mais conhecidas do próprio Marx. Em suma, a maior formação teórica não se traduziu até agora em palavras de ordem práticas, embora, defende Buhle, a situação crítica da economia e da maioria da população esteja fazendo o mundo em geral e os EUA em particular literalmente “gritarem” por socorro em busca de novas soluções.

Um exemplo dessa situação que exige novas ideias a partir das observações de Marx, destacado por Buhle, é o clima de mobilização popular que acompanhou a primeira campanha eleitoral e a primeira posse de Barack Obama como presidente dos EUA. De alto a baixo e mais de baixo para cima do que de cima para baixo, nunca houve mobilizações de massas e massas tão progressistas e tão dinâmicas – avalia Buhle – quanto naquela ocasião, mais até do que nos movimentados anos da Frente Popular nos anos 1930. Não houve, porém, a formação de uma liderança política que transformasse esses anseios das grandes massas em ações políticas, sociais e econômicas que obrigassem Obama a não ser, como está sendo, mais um presidente-imperador dos EUA.

Pode-se esperar, diz Buhle, que nos anos vindouros, nos EUA, ocorram mobilizações “macroscópicas” como a Primavera Árabe e não “microscópicas” como a que ocorreu recentemente no estado americano de Wisconsin, quando o governo estadual deixou de reconhecer os sindicatos dos trabalhadores do setor público. O autor especifica: “Assumir a visão de longo prazo, captando os significados das continuidades, particularmente as ocultas à primeira vista, tanto capitalistas como anticapitalistas, pode ser a contribuição mais útil” que a nova geração de interessados em Marx pode dar.

De crucial importância é a constatação de Buhle de que não devem ser desprezadas e ignoradas, como faziam os antigos marxistas, as propostas não baseadas em Marx para a presente crise. Também ele julga crucial o movimento que se observa em várias partes do mundo daquilo que chama de “o retorno de Hegel”. O filósofo do idealismo objetivo alemão só esteve nas margens do marxismo do século XX, mas atualmente está mais no centro das preocupações dos jovens no mundo inteiro que estão estudando Marx.

Outra coisa importante é recuperar “os capítulos perdidos da história da esquerda americana”. De particular relevância é a observação de Buhle: desde os anos 1970, no que se refere à história da esquerda americana, “os novos eruditos adotaram energicamente diferentes métodos de pesquisa, bebendo de fontes que iam de jornais e histórias orais a dados do recenseamento, do folclore musical e das imagens icônicas, que pudessem oferecer um retrato preciso da vida da classe trabalhadora, tal como foi vivida e entendida por seus próprios participantes”. E o autor prossegue nesse raciocínio: “Poder-se-ia perguntar, após terem passado 40 anos, se a realidade da vida da classe trabalhadora no presente (especialmente, mas não somente, entre os trabalhadores brancos) pode incorporar de modo útil esse novo conhecimento. Mesmo assim, foi fácil ver, a partir da história viva de muitas comunidades de trabalhadores manuais e dos relacionamentos dos historiadores com estudantes e habitantes locais, que pelo menos algo do passado dos trabalhadores permanecia, especialmente entre os mais velhos”. 

Em outras palavras, o radicalismo dos trabalhadores dos anos 1930 só sobrevive mais entre aqueles que viveram aqueles tempos. Apesar disso, conclui Buhle, “a história da vida da classe trabalhadora branca, porém mais especialmente da classe trabalhadora afro-americana e hispânica, era tudo, menos passado. Para os milhões de imigrantes que chegaram depois de 1965, na verdade, a maior parte da história estava no futuro americano”.

FONTE:  Outras Palavras

quarta-feira, 15 de julho de 2015

MAS: 'Na Grécia e na Europa: Oxi (Não) à troika e à submissão'


Portugal - MAS - Editorial do jornal Ruptura nº141, Julho/Agosto 2015:

"O povo grego mostrou, no referendo e nas ruas, que está disposto a enfrentar a vergonhosa política de rapina e chantagem que a UE, o BCE e o FMI (troika) querem continuar a aplicar aos povos da Europa.

A brutal campanha de chantagem feita pelos governantes da UE, pela imprensa internacional e apoiada, na Grécia, por todos os canais de TV privados para que os gregos votassem sim e aceitassem as “regras” da UE e do Euro não surtiu o efeito que esperavam e a esmagadora vitória do Oxi (Não), com 61,3%, expressou um massivo repúdio popular à política de Merkel e aos governantes da UE.

O povo grego expressou nas urnas, pela segunda vez este ano, que quer a política de austeridade enterrada, que quer acabar com o empobrecimento e a miséria, que quer reactivar a economia para recuperar os empregos e os salários destruídos pela troika, que quer ter serviço público para a saúde e para o ensino.

Este novo mandato dado ao governo do Syriza coloca-lhe a responsabilidade de mudar o rumo às políticas que têm sido aplicadas e enfrentar de vez Merkel e os donos da Europa. É este o momento porque a UE e o Euro estão enfraquecidos pela estucada dada pela decisão do povo grego.

Os impasses, as cedências negociais do Governo de Tsipras e a permanente tentativa de conciliar o inconciliável conduziram a esta situação difícil e confusa para o povo grego. Aceitar qualquer acordo que dê continuidade a uma política de austeridade é incompatível com as necessidades do povo grego de recuperar a economia e a vida que foi destruída pela troika.

O não pagamento dos 1,6 mil milhões de euros que eram “devidos” ao FMI a 30 de Junho passado provou ser útil à mobilização do povo grego e deve ser tomado como exemplo do caminho a seguir com toda essa “dívida” ilegítima.

A dívida, herdada dos anteriores governos e das suas políticas a mando da elite capitalista e dos grandes armadores, estrangula o país, a economia e os gregos. Perante tal cenário, impunha-se, desde o início do actual Governo, que se decretasse uma suspensão do seu pagamento para existir investimento desse dinheiro na economia real, na recuperação de empregos e na concretização da anunciada proposta de aumento do salário mínimo.

É claro que, paralelamente a essa suspensão, teriam de ser tomadas medidas de controlo público da Banca para evitar a fuga de capitais que já aconteceu (30 mil milhões de euros nos últimos 5 meses) e nem seria necessário a drástica (e impopular) medida que agora teve de ser tomada de encerrar os bancos por tanto tempo.

A troika mantém a guerra contra os povos da Europa para continuar a sugar-nos e à nossa custa repor, nos cofres dos Estados e das empresas, o dinheiro que os governantes corruptos e os capitalistas roubaram ao longo dos últimos anos. Para a Grécia, continuam a não ceder nessa política, apesar de já terem colocado a maioria do povo grego na miséria, destruído muitos dos equipamentos e serviços públicos e atirado milhões para o desemprego.

As chamadas “dívidas públicas” são uma fraude impagável e um meio de manter mais um canal de exploração permanente dos povos mediante o pagamento trimestral dos juros aos “credores”, que, na sua maioria, são os próprios donos dos bancos e instituições financeiras. A imposição das medidas que o BCE exige para manter o Euro são incompatíveis com os direitos e a vontade popular e, por isso, quer Portugal, quer a Grécia têm de dizer basta a esta chantagem e exploração permanente. É preciso romper com estes “credores” e com as leis que esta oligarquia impõe aos povos.

Rodear de solidariedade o povo grego, seguir o exemplo e enfrentar a UE

A solidariedade internacional com a luta do povo grego é fundamental para enfrentarmos e rompermos com os políticos da troika, com a austeridade e a exploração, com os políticos e corruptos que vendem o país.

Os governos da alternância dos partidos do arco da corrupção, PSD, PS e CDS-PP, têm afundado o país. Aliás, o processo político em países como a Grécia e Espanha também teve uma semelhança histórica com governos que se alternaram entre a direita tradicional e os PS locais (PASOK e PSOE, respectivamente) e que também, como em Portugal, levaram os países para o abismo da dívida impagável, do desemprego e dos cortes nos salários e pensões.

A diferença relativamente à situação actual portuguesa é que, na Grécia, esse vira o disco do “centro” foi quebrado com o desempenho do Syriza como alternativa governativa, e, em Espanha, com o Podemos e os movimentos de cidadãos, que também estão posicionados para romper com essa alternância que parecia não ter fim.

Para enfrentarmos a Merkel e a UE, para retomarmos a soberania do país, investir na produção, recuperar as centenas de milhares de empregos destruídos e devolver ao país o sector público e os salários e pensões que nos foram roubados é preciso também, em Portugal, construir uma plataforma política de unidade para se assumir verdadeiramente como uma alternativa aos partidos que nos têm governado desde o 25 de Abril."