quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ANTÔNIO GRAMSCI: uma concepção marxista inovadora sobre o fenômeno religioso


Por Tarcísio Marcos Alves (*)


Entre os pensadores marxistas, Gramsci foi talvez o que mais se interessou pela religião, mais precisamente pelo catolicismo como uma das ideologias mais poderosas da história do mundo ocidental, assim como aquele que mais procurou entender o seu papel na cultura religiosas das massas populares.

Revendo as teses de Max Weber, questiona que o capitalismo tenha sido produto da evolução superestrutural da ética protestante . Para ele, "o processo é mais complexo: saído da estrutura sócio-econômica como, aliás, toda superestrutura ideológica, o calvinismo, tornando-se norma da conduta prática, reage por sua vez sobre a estrutura sendo a fonte de novas iniciativas. Voltando ao vocabulário gramsciano, a passagem do calvinismo ao espírito capitalista é a passagem da "necessidade à liberdade." Para Gramsci, o mérito de Max Weber não é de sair do determinismo econômico, mas de mostrar, a partir do exemplo protestante, o mecanismo de passagem de uma concepção do mundo à ação prática. Gramsci recupera Max Weber reintroduzindo nele a dialética." (PORTELLI, 1984: 94).

A análise gramsciana do desenvolvimento ideológico e político do cristianismo segue, em linhas gerais, às de Engels, com algumas novas abordagens – em especial no aspecto cultural, privilegiado por Gramsci, que pode ser sintetizada em três aspectos:

1.O cristianismo é visto por ele como uma "força revolucionária";
2.O cristianismo feudal exerceu uma função hegemônica progressiva na sociedade européia;
3.O cristianismo pós-tridentino, ao jesuitizar-se, fortaleceu o aparelho institucional e hierárquico em contraposição às heresias de caráter popular e tornou-se "opiáceo", o que provocou o afastamento progressivo da Igreja Oficial em relação ao povo, originando a dicotomia entre os "intelectuais" da hierarquia e as massas camponesas. (Cf.:STACCONE,1991:199)

Quando jovem, Gramsci via a religião como um fenômeno alienante, que remete para as esferas meta-históricas, concepção predominante entre os marxistas do início do século XX.

Já a partir da década de 20, ele passou a ter uma nova concepção da religião, encarando-a como uma força ideológica com poder de mobilização das massas oprimidas, em especial os camponeses, para a luta prática, material. Assim ele define o fenômeno religioso (a citação é extensa, mas necessária como definidora da essência da concepção do autor sobre a religião):

A religião é a mais gigantesca utopia, isto é, a mais gigantesca "metafísica" que já apareceu na história, já que ela é a mais grandiosa tentativa de conciliar, em uma forma mitológica, as contradições reais da vida histórica: ela afirma, na verdade, que o homem tem a mesma "natureza’, que existe o homem em geral, enquanto criado por deus, filho de Deus, sendo por isso irmão dos outros homens, igual aos outros homens, livre entre os outros e da mesma maneira que os outros; e ele pode se conceber desta forma espelhando-se em deus, "autoconsciência" da humanidade; mas afirma também que nada disto pertence a este mundo e ocorrerá neste mundo, mas em outro (utópico). Desta maneira, as idéias de igualdade, liberdade e fraternidade fermentavam entre os homens; entre homens que não se vêem nem iguais, nem irmãos de outros homens, nem livres em face deles. Ocorreu assim que, em toda sublevação radical das multidões, de um modo ou de outro, sob formas e ideologias determinadas, foram colocadas estas reivindicações. (1981: 43 )

O que despertou a atenção de Gramsci para a relação entre a Igreja e o povo foi a entrada de católicos – em especial das camadas populares – no Partido Popular, a partir de 1919, em oposição sistemática ao Partido Liberal burguês, o que levou ao conflito entre a hierarquia católica e o Estado . Essa ruptura, que se deu no nível ideológico, será resolvida pelo Estado que conseguiu absorver, durante o período da Primeira guerra e das revoltas operárias a Igreja e absorver os mitos religiosos e utilizá-los como instrumento do governo, em acordo com os altos escalões da Igreja católica. O Partido Popular congregava em suas e representava interesses conflitantes de camponeses, médios proprietários e latifundiários católicos. O conflito entre Igreja e Estado, que camuflava-se no campo religioso, agora explicita-se politicamente, e a convivência entre latifundiários e camponeses torna-se cada vez mais conflitiva.

A alta hierarquia da Igreja católica cria a Ação Católica e alia-se ao fascismo para combater o Partido Popular, agora já esvaziado dos latifundiários e médios proprietários.

Será a partir das reflexões sobre esses conflitos que Gramsci desenvolverá, na prisão, suas teses inconclusivas sobre o catolicismo, e em especial nos Cadernos do Cárceres .Sua principal preocupação será sobre a influência ideológica da Igreja na história da sociedade ocidental e em especial da Itália. As suas reflexões partem da premissa de que as instituições religiosas representam forças ativas na estrutura ideológica das sociedades e não devem, portanto, serem analisadas isoladamente, como algo autônomo e abstrato, mas inseridas na história real das sociedades. Por isto, ela faz parte integrante da ideologia de determinado bloco histórico.

As relações entre a realidade material e a ideologia é assim definida por Gramsci: "As forças materiais são o conteúdo e as ideologias são a forma, sendo que esta distinção entre forma e conteúdo é puramente didática, já que as forças materiais não seriam historicamente concebíveis sem forma e as ideologias seriam fantasias individuais sem as forças materiais." (1981: 63)

O seu conceito de ideologia tem, portanto, um significado positivo no nível do conhecimento e da prática cotidiana – o senso comum - , e também na política. Assim, as ideologias não são apenas "elocubrações arbitrárias":

Na medida em que são historicamente necessárias, as ideologias têm uma validade psicológica: elas "organizam" as massas humanas, formam o terreno sobre o qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição, lutam, etc. "(1981:16) Assim, afirma que as "ideologias necessárias", ao contrário das "arbitrárias" e individuais, são coletivas, e como tal podem "assumir na prática a granítica e fanática solidez das crenças populares, que têm a mesma energia das forças materiais. (1981: 114)

Conclui-se daí que a ideologia é também um produto dos conflitos sociais e das lutas de classes, além de não ser a mesma para todas as classes e grupos sociais. Além disso, e neste aspecto há divergência sobre o conceito ortodoxo marxista da ideologia, Gramsci acreditava que as classe subalternas não aceitam passivamente as idéias das classes dominantes.

Para Gramsci, a religião á uma ideologia; porém, divergindo de Marx, acha que não existe uma realidade única de religião. Analisada nessa perspectiva, a religião seria um fenômeno a-histórico. Daí que se deve analisar o fenômeno religioso no seu contexto histórico-social.

Para Gramsci, o Cristianismo, ao longo de sua história, passou por um processo de desagregação e contaminação doutrinária. O povo, a partir do século VII, deixou de entender o latim, língua oficial da liturgia católica e, sem controle da hierarquia, assumiu característica distintas e afasta-se dos dogmas pregados pelos "intelectuais" católicos. Assim surgiram várias formas e seitas diversas dentro do Catolicismo: "Há um catolicismo dos camponeses e um catolicismo dos pequenos-burgueses, um catolicismo das mulheres e um catolicismo dos intelectuais, também este variado e desconexo." ( In. STACCONE, 1991: 193)

A Igreja católica romana desenvolveu ao longo de sua história, um enorme esforço para evitar a formação de duas religiões: uma ortodoxa dos "intelectuais" e outra " popular", do povo simples. E a força utilizada pelo bloco católico para a unidade ideológica foi a política, a força da coerção utilizada especialmente momentos de debilidades do aparelho ideológico da Igreja, marcado historicamente no período da Reforma Protestante. A Contra-Reforma, com a Companhia de Jesus - os Jesuítas - e as missões, será a resposta da Igreja para impor sua hegemonia.

A partir de então, inicia-se a luta da Igreja contra a modernidade, quando , segundo Gramsci, ela perdeu a hegemonia sobre a sociedade civil na Europa: "A Igreja, com a Contra-Reforma, desligou-se definitivamente das massas dos "humildes" para servir aos "poderosos". (In. STACCONE, 1991: 220). As "heresias" e outros movimentos de contestação à hierarquia, configura a ruptura entre a Igreja e o povo simples, em especial os camponeses... Em relação aos movimentos camponeses, há uma divergência entre Gramsci e Engels: para Gramsci a Reforma é um movimento popular, enquanto Engels. . .

A maior contribuição de Gramsci para o estudo do fenômeno religioso, portanto, situa-se na sua abordagem da religião como uma forma histórica de ideologia, inserida no contextual cultural das sociedades...s é foi movimento iniciado por intelectuais – Lutero, Calvino – e uma revolução camponesa dirigida também por intelectuais ( Münzer).


BIBLIOGRAFIA

GRAMSCI, Antônio. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro: Civ. Brasileira, 1978.
_____Cartas do Cárcere. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978.
_____Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilizção Brasileira, 1981
PORTELLI, Hugues. Gramsci e a questão religiosa. São Paulo: Paulinas, 1984.
STACCONE, Giuseppe. Filosofia da religião – O pensamento do homem ocidental e o problema de Deus. Petrópolis: Vozes, 1991.


 (*) Historiador e professor aposentado da UFPE.

1 comentário:

  1. Boa tarde Tarcisio.

    Circula na internet uma frase atribuída a Gramsci com o que segue - "o mundo civilizado tem sido saturado com cristianismo por 2000 anos, e um regime fundado em crenças e valores judaico-cristãos não pode ser derrubado até que as raízes sejam cortadas" - numa clara tentativa de afastar o público cristão do pensamento Gramsciano.
    Pergunto se é verdade que isso foi escrito por Gramsci, e em caso positivo, se está de alguma forma descontextualizada.
    Obrigado

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